E haviam tantos livros teus que eu queria ter lido...
Não recordo mais com saudade, mas
com nostalgia. O que vem a ser diferente em algumas ocasiões, como pensamentos
interrompidos. Como aquela música que tantas vezes já tocou, mas que hoje, ao
tocar novamente, me fez sentir como da primeira vez. Quando a conheci. Quando a
aprendi. Aprendi a música, te aprendi.
Nós deveríamos ter arrumado mais
o quarto. Quando eu tomava a garrafa inteira de café, reclamando da rinite e
dos teus constantes pedidos de ajuda para fazer qualquer coisa que, no momento
descansando do trabalho com um livro entre os dedos, não dei atenção. Não me
apeteceu.
Não sinto vontade de voltar
atrás, mas até bem pouco tempo, nem sentia vontade de lembrar. Já não sentia
nada, como dizia a música, a tal música, que dizias ser tua, e eu dizia ser
minha, e não mais dizíamos nada. Longas horas de silêncio anestésico,
curandeiro, reconciliador.
E eu te dizia qualquer bobagem,
que tomavas como lei sagrada de existência. Respondias-me com esforço e
exagerada eloquência, o que sempre me parecia um pouco mais estúpido, vão,
torpe do que gostarias de soar.
Divertia-me te vendo ler meus
poemas, crônicas e resenhas, e espalhar tudo sobre a cama em desordem, tentando
me aprender, admirando meu parco talento, me cobrando quase que diariamente um
pouco mais de exposição, um pouco mais de intimidade, um pouco mais de mim. Dei-te
muito, não tudo. Não teria dado o que nem eu sei se tenho. Fui egoísta, sou,
segui sendo.
Te cobrei maturidade, enquanto
choramingavas lamentando o passado, e esgotavas minha já tão rara paciência. Te
exigi mais cultura, para sequer se permitir me questionar, quando me julgavas
errando, sem saber muito bem o motivo, ou quando eu derramava o conteúdo do
cinzeiro por acidente sobre o último lençol limpo de nosso armário.
E hoje, te dou razão, sobre uma
das últimas coisas que me disseste. Eu não poderia viver assim. Não estava
vivendo de fato. Não suportava que minha alma livre se comprimisse em tão
poucos metros quadrados de intelecto; mental, gestual, habitual. Nunca pude
caber em ti, porque meu espírito extravasava as paredes do quarto, da casa, o
quarteirão...
Então sim, te dou razão, toda
razão. Mas não, não me refiro ao material – que tanto te prende e apega. Não me
refiro ao cortiço, nem às dificuldades de uma vida a dois. Me refiro ao mundo
pequeno, limitado e trôpego que a tua sufocante persistência me acometia. Não
saí de casa, saí de ti.
E tem tantos livros teus que eu
gostaria de ter lido... Livros aos quais nem te davas ao trabalho de espanar
esporadicamente. Livros que se empilhavam na prateleira metálica, e que só eram
manipulados por mim. Alguns ainda no plástico de compra, envelhecendo junto
conosco, fora de uso, mais meus do que teus.
Não sei qual caminho escolheste
pra ti, e como já disse, não sinto saudade.
Aquela música hoje tocou,
enquanto eu tomava meu café e fumava meu cigarro. Contemplei o céu fechado,
chuvoso, lindo. O céu daqueles dias que vivemos no passado...
E senti falta dos
teus livros.

De muito bom gosto!
ResponderExcluirIsso parece a minha vida. Lindo demais.
ResponderExcluirMe orgulho em dizer que li esse conto escrito a mão na tua agenda. Adorooo!!!
ResponderExcluirnossa! sem palavras .totalmente sem palavras.
ResponderExcluirVocê é perfeita!
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