quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os livros no plástico



E haviam tantos livros teus que eu queria ter lido...

Não recordo mais com saudade, mas com nostalgia. O que vem a ser diferente em algumas ocasiões, como pensamentos interrompidos. Como aquela música que tantas vezes já tocou, mas que hoje, ao tocar novamente, me fez sentir como da primeira vez. Quando a conheci. Quando a aprendi. Aprendi a música, te aprendi.

Nós deveríamos ter arrumado mais o quarto. Quando eu tomava a garrafa inteira de café, reclamando da rinite e dos teus constantes pedidos de ajuda para fazer qualquer coisa que, no momento descansando do trabalho com um livro entre os dedos, não dei atenção. Não me apeteceu.
Não sinto vontade de voltar atrás, mas até bem pouco tempo, nem sentia vontade de lembrar. Já não sentia nada, como dizia a música, a tal música, que dizias ser tua, e eu dizia ser minha, e não mais dizíamos nada. Longas horas de silêncio anestésico, curandeiro, reconciliador.

E eu te dizia qualquer bobagem, que tomavas como lei sagrada de existência. Respondias-me com esforço e exagerada eloquência, o que sempre me parecia um pouco mais estúpido, vão, torpe do que gostarias de soar.
Divertia-me te vendo ler meus poemas, crônicas e resenhas, e espalhar tudo sobre a cama em desordem, tentando me aprender, admirando meu parco talento, me cobrando quase que diariamente um pouco mais de exposição, um pouco mais de intimidade, um pouco mais de mim. Dei-te muito, não tudo. Não teria dado o que nem eu sei se tenho. Fui egoísta, sou, segui sendo.

Te cobrei maturidade, enquanto choramingavas lamentando o passado, e esgotavas minha já tão rara paciência. Te exigi mais cultura, para sequer se permitir me questionar, quando me julgavas errando, sem saber muito bem o motivo, ou quando eu derramava o conteúdo do cinzeiro por acidente sobre o último lençol limpo de nosso armário.

E hoje, te dou razão, sobre uma das últimas coisas que me disseste. Eu não poderia viver assim. Não estava vivendo de fato. Não suportava que minha alma livre se comprimisse em tão poucos metros quadrados de intelecto; mental, gestual, habitual. Nunca pude caber em ti, porque meu espírito extravasava as paredes do quarto, da casa, o quarteirão...
Então sim, te dou razão, toda razão. Mas não, não me refiro ao material – que tanto te prende e apega. Não me refiro ao cortiço, nem às dificuldades de uma vida a dois. Me refiro ao mundo pequeno, limitado e trôpego que a tua sufocante persistência me acometia. Não saí de casa, saí de ti.

E tem tantos livros teus que eu gostaria de ter lido... Livros aos quais nem te davas ao trabalho de espanar esporadicamente. Livros que se empilhavam na prateleira metálica, e que só eram manipulados por mim. Alguns ainda no plástico de compra, envelhecendo junto conosco, fora de uso, mais meus do que teus.

Não sei qual caminho escolheste pra ti, e como já disse, não sinto saudade.

Aquela música hoje tocou, enquanto eu tomava meu café e fumava meu cigarro. Contemplei o céu fechado, chuvoso, lindo. O céu daqueles dias que vivemos no passado... 
E senti falta dos teus livros.

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