sábado, 3 de novembro de 2012

Moldura Estelar


PARIS, FRANÇA. EM UM FUTURO PRÓXIMO

   5:15pm

   Cidade morta, pássaros feios sobre os fios elétricos, ainda pingando da chuva rala que caiu ao final da tarde. Hoje é o vigésimo sexto dia desde a grande infecção, e a guerra já vem acontecendo há mais ou menos uma semana. Esta ainda pode ser minha última noite, ou talvez eu possa durar mais alguns dias. Quando eu era adolescente (lá pelos meus quinze anos), costumava ter pesadelos com zumbis que corriam atrás de mim, sempre pelo mesmo corredor da mesma casa que desconheço acordada, e nestes pesadelos eu sempre morria por não conseguir destrancar uma pesada porta de madeira que dava acesso ao quintal. Cresci buscando o oculto, o sobrenatural, o hediondo. Adorava tudo o que sangrasse na televisão e literatura, e devorava todos os filmes do Romero, Tarantino, e mais uma grande porção de produções independentes. Estes, e os meus pesadelos juvenis, eram minha ideia de zumbi até então. Mortos levantam, caminham pateticamente com as mãos estendidas para frente buscando os cérebros o tempo todo, pessoas sendo devoradas, e depois sendo transformadas...calamidade, pandemônio, morte. Cidade vazia, carros abertos e abandonados, sangue, trapos e lixo pra todo lado. Bem... Sinceramente, o que estou vendo aqui não é muito diferente disso. O que é diferente (muito diferente) é que tudo que aprendi ao longo de minha juventude sobre como sobreviver a um ataque zumbi agora, honestamente, não adiantou de nada. Obrigada pela tentativa, senhor Romero, mas zumbi não é assim. Zumbi (se é que podemos chamar assim) não perde a consciência quando é transformado, tornando-se assim muito mais difícil se esconder deles. Zumbis, quando transformados, recebem força, agilidade e sentidos absurdos, tornando-se ainda mais difícil combate-los. A única coisa que é de fato completamente igual aos filmes é essa necessidade mal educadíssima que eles tem de devorar seres humanos como eu. É claro que a pior parte não poderia ser diferente. Será que o Tarantino já morreu à essa altura? Espero que sim.

    Já posso ver os primeiros sinais de escuridão no céu. As manchas violetas na abóbada celeste. O céu de Paris. Uma das coisas que eu mais gostava de fazer antes disso tudo acontecer era contemplar as estrelas, sentada na varanda de meu apartamento. Não qualquer céu nem qualquer estrela, mas o céu e as estrelas de Paris. Acontece que, observando agora a chegada do que antes tanto me agradara e fizera feliz, lamento estar assistindo ao meu espetáculo favorito enquanto o temo, escondida neste quarto mofado de prostíbulo (onde consegui abrigar-me durante o dia) e espreitando pelas frestas da janela. A noite está chegando. Por algum motivo esses zumbis não andam de dia (na verdade eu desconfio do motivo. O sol acelera a decomposição de seus corpos mortos. Lá pela primeira semana ouvi pesquisadores dizerem que em países tropicais eles estavam encontrando mais dificuldade para se proliferarem, levando em conta que o frio da Europa colaboraria em demasia para a preservação de seus cadáveres). Preciso sair daqui, me esconder antes que eles despertem. Eles e os outros.

   Certo, começo a lembrar dos outros. Quando minha irmã mais velha era ainda bem pequena, surgiu uma modinha teen sobre uma saga de vampiros e lobisomens que se amam e bobagens adolescentes em geral. Minha irmã cresceu e tardiamente começou a apreciar a modinha besta, quando já nem fazia mais sucesso. Eu era fã dos clássicos, como Entrevista com o Vampiro e Nosferatu(1922). Novamente criei em minhas expectativas ideias errôneas sobre a espécie. Vampiro não brilha no sol, vampiro não foge de crucifixo, nem de água corrente. Vampiro não tem orelhas pontudas, nem precisa necessariamente dormir em caixões. Eles não parecem ser vampiros se não quiserem parecer, não morrem tomando banho de água benta, não possuem intolerância a alho nem tem nenhum problema em entrar em igrejas. Aliás, eles nem tem problemas em entrar em lugar nenhum. Além de força, destreza e habilidades psíquicas, os vampiros não precisam ser convidados para entrar. Eles simplesmente entram. Maria me falou sobre eles, aquela pesquisadora latina que fugia comigo na primeira semana. Ela morreu tem alguns dias, e talvez agora já seja zumbi também. Tal como as lendas, os vampiros também se alimentam de sangue humano (porque a pior parte tem que ser sempre igual ao mito), o que, naturalmente, os torna predadores assim como os zumbis. A diferença reside no fato de que para os zumbis o prato tem que estar completo, com direito a vísceras à milanesa, cérebro ao molho madeira e petisco de dedos e línguas. Os vampiros já são mais gentis. Algo como:

   - Prato completo, senhor? – perguntou o humano.

   - Não, só o sangue. Obrigado, sim? – respondeu o vampiro.

  Lamento por estar tendo estes pensamentos irônicos agora. Eu achava que era uma boa escritora, ia publicar meu livro novo em alguns meses, tudo finalmente começava a dar certo, e agora isso. Será que os vampiros leem livros? Os zumbis definitivamente não. Apesar de manterem uma parca consciência, são no mínimo predadores mais vorazes.

   5:44pm

   Saí do prostibulo com a mochila nas costas, já esvaziada de todo peso desnecessário (vinte e seis dias te ensinam muita coisa em certas circunstancias). Apertei o cabo do 38. Com força, afinal, tiro na cabeça mata qualquer coisa, e nisso todos os mitos tem razão. Lembro-me de quando pensei que não poderia ficar pior. Isso é uma maldição. Se você pensa que não pode piorar, piora. Eu acordei um dia na cama de alguém com quem havia dormido, e aparentemente a família inteira já era zumbi. Assim, do nada. Fugi, não sei como isso começou, as pessoas foram morrendo, eu fui fugindo (não sei como também, com esse meu porte magricela de nerd e a estatura baixa que sempre me sacaneou, eu sobrevivi tanto tempo), e pensei aquela coisa, aquela maldição: pior do que está não fica. Foi aí que os clãs de vampiros (que pelo que a Maria me disse já existiam há séculos, vivendo entre nós, tentando não levantar suspeitas) resolveram unificarem-se e ao mesmo tempo dividirem-se. Aparentemente alguns deles passaram a enfrentar os zumbis, evitando assim que suas fontes de alimento, os humanos, não fossem exterminados de vez (já que os vampiros não podem se alimentar dos zumbis, e vice-versa) e outros passaram a, além de combater os zumbis, devorar o sangue de todo e qualquer humano ou animal que aparecer pela frente, para manterem-se fortes em campo de batalha. Temos vivido (ou morrido) desta maneira desde então. Os poucos humanos que restaram agora se escondem a noite, quando todos despertam, e descansam de dia. Aprendi que à noite preciso manter-me em movimento, ficar parada só concentraria meu cheiro de viva em um ponto fixo, tornando assim mais fácil minha localização. Já tem dois dias que não vejo nenhum humano, e começo a pensar que não existe mais ninguém além de mim.

  Continuo esgueirando-me por trás dos carros, postes e árvores que encontro. A rua está completamente deserta, iluminada apenas pelos últimos raios de sol. Pretendo chegar ao centro, aos bairros mais nobres. Por alguma razão a periferia é ótima para se esconder de dia, mas também é a pior área para se permanecer a noite, levando em conta que devido o grande número de humanos, outrora aglomerada pelos bares e cortiços, a grande infecção prevaleceu nestas áreas e muitos ainda estão por aqui. No centro ainda há energia elétrica (não sei quem a mantem funcionando, acho que são os vampiros, já que nem todos eles enxergam no escuro), e pretendo chegar lá antes de escurecer de vez.

    6:20pm

   Estou correndo agora. Difícil se esgueirar em campo aberto, e em casos como este é melhor correr mesmo. Avistei um prédio comercial onde há energia elétrica, e onde eu talvez possa arranjar comida, ou problemas. Pior do que está não fica. Droga... Eu fiz de novo.

  Começo a questionar a realidade em tudo isso. Poderia ter sido uma ótima estória se eu tivesse pensado em escrevê-la. Inventa-la teria sido tão melhor que vivê-la! Será que ao final de tudo isso o mundo poderia voltar ao normal, e os seres humanos poderiam então reconstruir o planeta e a sociedade? Se isso acontecer, e eu sobreviver, juro que deixarei um manuscrito contando toda essa história, e darei um jeito de ter pelo menos um filho, pra quando houver editoras novamente, ele ou ela publicarem meus relatos, em meu nome.

  Ganhei os degraus do edifício. Os raios de sol já sumiram completamente do céu. Não vejo ninguém, humano, zumbi ou vampiro. O silencio é tamanho que quase posso ouvir meu pulmão esforçando-se para receber o ar cortante e gélido do início da noite. O caso é que o que é silencio para mim pode perfeitamente parecer uma sirene de viatura aos tímpanos sensíveis dos vampiros, e o ar gelado e seco para mim pode ser um excelente condutor de aromas às narinas treinadas dos zumbis.

   A porta grande do prédio, que parece feita de um blindado bastante resistente, está agora pela metade. O outro lado foi atingido por um veículo desgovernado e eu não quero nem imaginar onde foi parar o motorista. Posso ouvir uma musiquinha tocando em algum lugar distante agora, já que ultrapassei a porta e estou onde funcionou a recepção um dia. Tenho a impressão de que já estive neste local antes, mas não consigo recordar-me da ocasião em si. Minha preocupação no momento é de fato a música, que a cada novo movimento que faço em direção às escadas parece tocar mais alto. Não sei se devo me afastar de seu local de origem ou se talvez fosse melhor ir até lá e desliga-la, levando em conta que assim como chamou minha atenção, poderia chamar a dos outros.

  Comecei a subir as escadas com cautela. Pode ser perigoso estar sozinha neste espacinho claustrofóbico, mas ainda assim é preferível ir por aqui do que pelos elevadores.

  Já posso ver o corredor do segundo andar, e o prédio só tem quatro. As salas parecem escritórios, ora lojas de galeria. Algumas salas possuem nomes na porta, indicando talvez consultórios ou escritórios jurídicos e imobiliários. No final do corredor posso ver algo que muito me agrada: aquelas máquinas de chocolates, biscoitos, chips e refrigerantes. Estou com fome, e seria adorável, depois de tudo o que passei, comer uma boa barra de chocolate com avelã afinal. Não tem nenhum humano se escondendo aqui, do contrário talvez a máquina não estivesse mais abastecida. A música que escuto é agora uma latente realidade, e não mais um zumbido distante. Ela vem da última sala do corredor, justo a sala que fica ao lado de meus chocolates. Ótimo, tudo o que eu quero está na mesma direção.

  Engatilhei a arma, e estou caminhando de costas rentes à parede como os filmes me ensinaram... Não. Nada de filmes. Com eles aprendi tudo errado. Encontrei coragem, virei de frente para a porta. A música é blackbird dos Beatles. Girei a maçaneta e abri.

    O zumbi está quase em cima de mim agora. Errei o tiro. Nem vou comer meu chocolate.

    8:10pm

  Estou encarando as costas da mulher que me salvou. Há mais ou menos uma hora atrás, acordei sentindo um sabor doce muito conhecido ao meu paladar, e descobri que, além de ter conseguido atirar com a própria arma no zumbi que me atacou, ela me tirou do prédio, me trouxe para uma mansão com muros altos e cerca elétrica na qual ela parece se sentir bastante à vontade e ainda me conseguiu o chocolate que tanto queria. Aparentemente (ou pelo que entendi do que ela me disse) eu desmaiei com o impacto do corpo do zumbi contra o meu, mas ele não chegou a me morder.

   Ela está me conseguindo roupas limpas agora, revirando o armário em busca de peças que não pareçam lençóis em meu corpo pequeno quando vesti-las. Estou sentando vagarosamente na cama e retirando a toalha molhada da testa. Sempre considerei isso de compressa pura bobagem, mas ela jura que funciona.

   Seu nome é Bianca, e ela tem um carregado sotaque italiano. Preocupa-me, a Bianca. Nunca vi uma mulher tão bela em toda minha existência. Olha que já conheci basicamente todo tipo de mulher na vida, mas ela é diferente. Além do corpo esguio e voluptuoso, ela ainda possui esses inebriantes olhos verdes, muito vivos, e os cabelos como cortinas de seda, impecavelmente passadas, em tons castanhos que por alguma razão me lembram cadeias de montanhas.

   Bianca se move com leveza e suavidade, como se, antes de tudo isso acontecer, fosse dona dos mais decentes modos e comportamentos. Como uma dama da alta sociedade parisiense, mas é neste ponto que começo a estranha-la. Ora, se ela fosse de fato uma socialite, o que justificaria ela ter, sozinha, se livrado do zumbi? Definitivamente ela não é um zumbi. Definitivamente este corpo esculpido em marfim não está em decomposição, mas... Torno agora a ouvir a voz de Maria em minha consciência (que está por se perder-se de vez, levando em consideração que eu poderia esquecer todo o mundo acabando lá fora apenas para apreciar Bianca mover-se pelo quarto). Os vampiros não precisam andar por aí expondo as presas, ou pálidos como albinos, se assim não desejarem. A beleza de Bianca parece-me de fato sobrenatural, e sua voz macia, aveludada, monocórdia, definitivamente possui alguma nota hipnótica (ou será que hipnotiza somente a mim?).

   Ela voltou-se para mim sorrindo, aqueles dentes de diamante, e ofereceu-me um jeans e um moletom preto com capuz. Devolvi o sorriso à ela, e recebi as peças de vestimenta...acontece que o toque leve de sua mão, que acidentalmente roçou na minha ao entregar-me as roupas despertou algo dentro de mim. Senti meu corpo inteiro formigar dentro do roupão de banho que agora cobria minha nudez. Bianca sorri mais, parece compreender exatamente o que fazer.

   Ela me observa jogar as peças de roupa displicentemente para o lado, e agarra-la com as duas mãos pela gola da camisa social preta que usa. Ela me beija, e sua língua é quente, macia, segura de si. Viro-me por cima dela, fazendo seu corpo rolar pela cama, e começo a desabotoar sua camisa, seu jeans, arrancá-los. Tenho pressa, tenho urgência de toca-la, de senti-la. Ela abre meu roupão de banho e finalmente nossos corpos nus se encontram. Já me sinto tão excitada que não pareço poder esperar mais nenhum segundo para entregar-me a ela.

  Bianca oferece-me gemidos comportados, suaves, baixos, que por serem tão discretos tornam-se ainda mais estimulantes. Mordisco seu pescoço, depois desenho seus mamilos com a ponta de minha língua e dedilho o interior de suas coxas, ela roça as unhas longas de leve por minhas costas, mas quando passo a ponta do dedo com leveza em seu local mais íntimo, ela crava as unhas com força, fazendo-me contorcer de prazer e breve dormência. Transcendo-a ao estado orgástico, e ela sem ao menos repousar por alguns segundos tem sua vez de fazer-me girar pela cama para baixo de seu corpo, mais forte e pesado que o meu. É uma mulher agressiva e envolvente. Ela desenha agora uma trilha com a ponta da própria língua, que parte de meus lábios superiores, segue pelo pescoço, seios, barriga, pelve e finalmente encontra Vênus. Sinto que vou morrer, mas é de fato apenas a sensação. É como se ela houvesse recebido um curso milenar de atividades orais. Questiono-me novamente sua humanidade, mas por segundos apenas, frações de segundos, já que ela recomeçou e não consigo pensar nem sentir mais nada além de prazer.

   Ao final do ato, ela volta para perto de meu rosto, a fim de beijar-me os lábios. Não quero parar, não posso. Preciso dela mais uma vez, duas, mil. Bianca ri novamente, e quase tenho certeza de que ela anda lendo meus pensamentos.

   Sua próxima atitude me assusta. Ela volta os lábios com agilidade para o meu pescoço, e crava as presas afiadas como adagas em minha jugular. De certo modo eu sempre soube, eu acho, mas o que sinto agora não é a vida esvaindo-se de mim, e sim o maior prazer do mundo. O que nunca pensei ser capaz de sentir, de existir... Minha boca sente agora o sabor do paraíso. É paraíso a palavra. O intocável, o sagrado, o puro. O puro néctar divino que ela engole e derrama em finos fios líquidos de ouro rubro, esquentando meu colo. Mil mãos macias tateiam meu corpo ao mesmo tempo. Penugens suaves acariciam minhas veias. Sinto-me fora de controle, e os espasmos doces que me acometem são uma ritmada dança de coito somada ao sabor de iguarias transportadas dos caminhos da Índia. É como ter a melhor noite, com o melhor dos amores, o melhor dos sabores, os mais caros perfumes, os mais finos fumos, o melhor dos vinhos, a melhor das eras, o poder do mundo inteiro... Vou morrer! Vou morrer! Vou...

   Ela retirou as presas, lambeu a ferida feita por elas para o ferimento sarar, e me aconchegou em seus braços. Eu tremo. Ela sorri.

   -Por que não me matou? – pergunto

   -Porque nunca foi esta a minha intenção.

   -Então o que você fez me mordendo? O que foi isso que senti?

  -É este o efeito de nosso “beijo” nos mortais. Fiz aquilo apenas para te satisfazer, meu bem. Não pretendo fazer-te de alimento. A não ser é claro, que sejas alimento de minha luxúria.

   Esforço-me até pra sorrir, alojada em seus braços castos. Ela diz algo sobre preparar-me uma refeição. Não encontro resposta. Ainda estou no paraíso.

    4:23am

   Bianca preparou-me uma macarronada deliciosa mais cedo. Nada comparado à mordida de mais cedo, óbvio. Explicou que ela não é o tipo de vampiro que se alimenta de qualquer humano que encontrar. Disse que vai cuidar de mim, e que quando tudo isso acabar ela pretende me manter com ela. Lembrou-me que seria uma tremenda burrice (claro que ela, fina como é, não utilizou-se destes termos) da parte dela se não se preocupasse em preservar minha espécie, sendo os humanos sua fonte de alimentação única e primordial. Ela pretende, segundo ela própria me disse, encontrar seus companheiros espalhados em campo de batalha, reunir um exército para combater os zumbis e os outros vampiros que pelo que entendi são os “do mal”, e reverter a situação atual. Perguntei a ela se isso é de fato possível, e ela disse que sim. Mostrou-me o quanto é forte, levantando com apenas uma mão uma pesada estante de madeira sem esforço. Mostrou-me como ela pode transformar o corpo todo em sombras, e alega poder dar ordens impossíveis de desobedecer apenas com o poder da mente, mas estes são dos dons dela. Os outros, pelo que ela me disse, são diferentes, já que existem inúmeras espécies diferentes de vampiro. Existem até vampiros que podem reanimar corpos mortos, mas estes – os reanimados por poderes de vampiro – são tipos diferentes de zumbi e não precisam devorar pessoas.

    Quanto mais antigo o vampiro é, mais poderoso ele se torna. Bianca nasceu em meados de mil e seiscentos, e é uma forte general desta batalha. É de suma importância aos seus companheiros e a mim que ela sobreviva se quisermos que essa guerra chegue ao fim. Recentemente ela separou-se de seu grupo. Ela menciona uma tal Melissa e um cara chamado Lex. Diz que trabalham pra ela, e jura que estão por aí ainda. Segundo ela, se eles morressem (novamente, porque vampiro já é morto e isso me assusta um pouco – porque lembro que transei com um cadáver) ela ficaria sabendo.

   Bianca disse também que quer que eu seja dela, e que se tudo ficar bem quer me transformar. Não sei se quero isso, mas na atual conjuntura já nem sei mais de nada e o que vier é lucro. Eu daria tudo, e desistiria de tudo pra ficar ao lado dela.

    Repassados os fatos mentalmente, dormirei. Ao anoitecer, a guerra recomeça.

   5:20pm

   Bianca me desperta e ainda não me situei direito do mundo ao meu redor. Sento sonolenta na cama e ela está me dizendo para fazer minha higiene, pois vamos sair da casa. Questiono-me a razão, já que ali me parece seguro e ela afirma que nenhum local fechado pode ser seguro nestas circunstancias. Obedeço-a sem questionar mais. Sou dela agora.

   7:37pm

   O mundo continua devastado, deserto e tenebroso. Partimos da casa há algumas horas e agora ela me mantém por perto enquanto procura pelos aliados. Mesmo com todo o cenário de horror e destruição que nos cerca, um fato me chama atenção. As estrelas de Paris, hoje, estão brilhando belas como antes. Sorriem para mim com sublime magnitude, e iluminam o caminho que me leva até Bianca, mesmo que eu a perca de vista por alguns minutos.

   Pergunto a ela se não é interessante que caminhemos até a companhia elétrica pra verificar quem está por lá fazendo a manutenção da energia. Bianca está rindo de mim, e diz que sabe muito bem quem está lá, que é um vampiro de uma espécie nobre, e que ele já faz muito se arriscando pelos outros, levando em conta que ele não tem grandes habilidades físicas, apenas psíquicas. Penso no quanto os vampiros se assemelham aos humanos quando se trata de egoísmo. Ela ri. “Já fomos humanos um dia, meu amor, mas com o tempo isso piora”.

   Ótimo. Não posso mais nem pensar em paz. Ela está rindo de novo.

   11:17pm

   Incrível como tudo isso está acontecendo, essa guerra entre espécies, deriva de uma espécie apenas, que deriva de outra, e por aí adiante. Estamos correndo. Encontramos o Lex há mais ou menos uma hora, quando três zumbis estavam nos atacando. Ele pulou de trás da boleia de um caminhão que estava parado no acostamento. Bianca está satisfeita em vê-lo, eu não. Não gosto do jeito que ele olha pra ela.

   Estamos correndo, como eu ia dizendo, pra encontrar a Melissa. Bianca está brigando entre sussurros com o Lex. Aparentemente ela está aborrecida por ele ter deixado a moça sozinha. Bianca se preocupa com a ela. Não sei se gosto dela também.

   Alcançamos um parque arborizado e escuro. Lex disse à Bianca que deixou a Melissa aqui. O local parece-me perigoso, mas Bianca disse pra não me preocupar. Certeza que vamos encontrar o que não deve.

    1:54am

  Melissa já estava ferida quando a encontramos. Havia marcas de garras por seus braços e barriga. Aparentemente o coração do vampiro é seu estômago, então os outros vampiros devem ter tentado mata-la. Por sorte as habilidades mentais de Melissa funcionam com os outros vampiros. Bianca a deixou escondida dentro de um posto da guarda municipal e eu fiquei junto com as armas (a que eu já tinha e a que a Bianca me deu). Sinto medo novamente. Melissa está tentando se curar com o poder de seu corpo encantado. Ela é gentil e doce, e já não a desgosto mais, pois entendi que Bianca a ama como pupila, mas do Lex tenho certa raiva. Ofereci uns dois goles de sangue à Melissa, para ajudar na recuperação, mas ela alega que Bianca a proibiu de alimentar-se de mim. Estou espiando pelo vitral peliculado, meu coração está a mil por hora. Bianca e Lex estão lutando arduamente contra outros dois vampiros, e acabou de chegar um zumbi. Lex tem garras no lugar das mãos agora. Imagino que tenham sido garras como estas que feriram Melissa, mas não as dele. Bianca luta com tentáculos, como os de polvo, só que os tentáculos são feitos de sombra, e mesmo assim infligem danos aos inimigos. O vampiro que enfrenta Lex é negro, e eventualmente cospe sangue de aparência enegrecida e viscosa, na esperança de acertar o corpo do amigo de Bianca. As cusparadas que não acertam fazem pequenos furos esfumaçantes no caminho de pedra do parque, como ácido. O negro porta uma espada árabe, e também tenta golpear Lex com a arma. Lex defende-se com as garras, ou esquiva-se com assombrosa velocidade, que meus olhos mal acompanham. Lex está levando a melhor.

   A mulher que enfrenta Bianca é ainda mais rápida, mas não possui garra alguma. Suas mãos atacam com duas espadas samurais longas, e uma delas já acertou Bianca no ventre. A mulher está machucada no momento, mas no momento as duas mulheres interromperam o duelo para dar cabo dos zumbis. Pergunto à melissa se não seria mais fácil deste modo, ou seja: que as facções rivais de vampiros primeiro se unissem para exterminar os zumbis e depois guerreassem entre si. Melissa me responde (e por alguma assustadora razão eu a ouço mesmo que ela nem tenha aberto a boca) que de fato essa possiblidade foi cogitada, mas que esses vampiros rivais não quiseram saber de acordo desde o início. E se os vampiros como Bianca, Lex e Melissa se limitassem a eliminar zumbis, acabariam por serem eles eliminados precocemente.

   Volto a olhar pra fora. Bianca já está lutando novamente com a mulher e Lex está desarmando o homem.

    2:36am
  Meu cérebro parece ter congelado por alguns minutos. Parecia correr tudo bem e Bianca e Lex iam levando a melhor. Lex já havia vencido o vampiro negro e Bianca estava esmagando a mulher já desarmada entre os seus tentáculos. Melissa já estava levantando-se da cadeira onde repousava. Eu estava tranquila.

   Vi quando a mulher entre os tentáculos, tal como havia ocorrido com o homem, dissolveu-se em cinzas, restando apenas sua arcada dentária, roupas e espadas no chão. O que não vi foi de onde saíram todos aqueles zumbis, uma enorme onda pulando de trás das árvores correndo em minha direção. Melissa disse-me rapidamente que seus poderes não funcionavam nas mentes dos zumbis. Pensei em não chamar Bianca (já que eles vinham pelo lado oposto que ela estava na guarita onde eu me escondia), e eram muitos para ela e Lex combaterem. Mas ela é dotada de uma percepção absurda, e notou o que acontecia. Prontamente ordenou a Lex que cuidasse de proteger a mim e Melissa, quando ela própria daria combate aos zumbis. Lex questionou-a, enquanto obedecia. Retirando nós duas de dentro da guarita e colocando-nos para trás de si.

   Bianca evocou pelo menos uma dúzia daqueles tentáculos, e todo ambiente escureceu. Meu coração estava no escuro. Minha alma, minha essência... E de repente vi que nada mais importava para mim, apenas que Bianca saísse ilesa daquele combate, e sabia que Lex e Melissa compartilhavam silenciosamente de meu sentimento.

  Quando finalmente a nuvem de sombra dissipou-se, não havia mais nenhum corpo em pé. Nem zumbi, nem Bianca. Eu que já temia o pior mesmo antes de vê-lo, corri em direção ao caos, mesmo com Lex tentando deter-me.

  Encontrei Bianca agonizante entre as dezenas de zumbis que eliminara. Senti uma pontada aguda no meio do peito, e o ar tornou-se ainda mais gélido e cortante. Ajoelhei-me ao seu lado e ela parece lutar para manter a consciência. Eu tremo e ela também. Ambas tremem por motivos ora distintos ora idênticos. Eu temo ela perca a vida, ela teme perde-la, e sente-se perdendo-a. Os espasmos aumentaram, e apoiei a cabeça dela em meu colo. Não restará muito tempo até que o corpo dela se dissolva em cinzas como dos outros, e agora, entre lágrimas, pareço saber exatamente o que saber.

  Acabo de beijar Bianca pela última vez. Seus lábios estão frios. Mal a sinto presente nesse corpo que seguro em meus braços. Procuro algo importante na mochila, e encontro o canivete suíço, a primeira arma que consegui quando a infecção começou. Corto meu pulso, e quase não dói. Sinto o sangue escapar veloz pelo corte, e rapidamente o encaixo na boca de Bianca. Lex tenta impedir-me, alegando que Bianca me iria querer viva, mas Melissa o detém, e explica que essa decisão é minha agora. Gosto da Melissa, e espero que ela fique bem.

  Bianca desperta, e não mais parece minha nobre e gentil amante. Seus olhos estão enegrecidos, e sua tez está bestialmente franzida, principalmente no cenho. Eu compreendo isso. Maria me disse que em todo vampiro existe um predador, que eles lutam para aprisionar o tempo todo. Não posso culpar Bianca por isso, e além do mais, era mesmo esta a minha intenção. Ela agarrou meu braço com violência e agora está sugando o sangue com voracidade. Sinto dor, dói muito. Não é mais prazeroso como foi da primeira vez. Parece que todos meus órgãos querem sair pelo minúsculo corte em meu pulso. Ouço Melissa gemer de desconforto ao prever o que acontecerá. Agora parece que me jogaram água gelada, desde a nuca até a base da coluna. Vejo luzes distantes, piscando em ziguezague. Tenho dificuldade de mover-me. Sinto-me pesada, dormente, inerte. Bianca abandona meu pulso ao mesmo tempo em que minha visão me abandona. Tudo escureceu de vez pra mim. Posso ouvir as vozes ao fundo. Parece que Bianca recobrou a consciência. Não sei quanto tempo já se passou desde que me cortei em seu favor. Posso ouvi-la chorando, me pedindo desculpas. Posso senti-la tomando-me em seus braços, e sinto-me feliz, pois não poderia desejar outro lugar pra estar. Quero dizer-lhe que não sofra, que tudo vai ficar bem, mas a voz, tal como os outros sentidos, já me abandonou. Ainda assim eu sei que ela pode ler meu último pensamento, então me esforço para abrir os olhos, e contemplo mais uma vez o seu rosto, emoldurado pelo céu de Paris, pontilhado de estrelas.

“Continue, querida. Continue por nós. Adeus”

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Um exército de mim (Parte I)


NA: Sugiro que escutem Bohemian Raphsody na primeira parte do conto, e Sweet Dreams - versão da Emily Browning na sequência. 

Juni não estava realmente preocupada em ter virado a sétima dose de tequila garganta abaixo. A carteira falsa lhe garantia maior idade pelo tempo que fosse preciso, e além do mais, se tentassem lhe levar para a delegacia haveria sempre um cartão de crédito - da conta de dependente do pai - que pagaria até um avião, se assim desejasse, então a propina para a polícia também estava garantida. Isadora estava debruçada no balcão ao seu lado, e uma das mechas de seu cabelo claro e liso agora se encontrava completamente imersa no copo de uísque. “Isa, bora?” Juni sussurrou no ouvido da amiga percebendo que naquele bar – o quarto da noite – não haveria mais muito com o que se divertir. Isadora apenas assentiu e seguiu a jovem de cabelos curtos e jaqueta de couro até o carro. 

            Nenhuma das duas havia feito dezoito ainda. Eram da mesma sala desde o primeiro ano do ensino médio e estavam em ano de vestibular. Juni era a mais esperta, e por isso acreditava nunca precisar estudar. Na verdade, acreditava não precisar fazer absolutamente nada. Desde os quinze anos jogava futebol no sub 17 feminino de um time grande, era filha de um grande empresário do ramo automotivo e como era órfã de mãe jamais precisara se preocupar com o que dizer quando chegava bêbada em casa. O pai lhe permitia liberdades, como sair com o carro, ou não dar satisfações de pra onde estava indo desde os catorze, e por vezes a garota sentia que ele pensava que ela era um garoto. Nunca se importou muito, na verdade. Mantinha-se em casa a política do “meu espaço, seu espaço” e para qualquer confusão em que ela acabasse se envolvendo a recomendação paterna era a mesma: “tem uma arma no porta luvas de seu carro, se for em cana ligue para o nosso advogado, mas antes de entrar na viatura, verifique se não há acordo”. Não era de se estranhar que às duas da manhã estivesse na rua com a amiga, ligeiramente bêbada e agora dirigindo a toda velocidade o enorme modelo utilitário preto e peliculado com o qual gostava de aproveitar o final de semana. Era quase um ritual das duas – Isadora e Juni, após muitas doses em muitos bares, começava a temporada de caça.

            Foi de Isadora a ideia inicial, meses antes, quando esta se declarou apaixonada a primeira vista por uma moça que dirigia um carro popular, que emparelhou com o de Juni no sinal vermelho. Aos berros então, ordenou à amiga que seguisse a garota para descobrir onde morava, ou onde estava indo. Algumas ruas depois, porém, a perseguida acabou notando a presença constante da pick-up preta para onde quer que fizesse a curva e pareceu realmente assustada, passando a dirigir em alta velocidade, entrando em ruas cada vez mais escuras e desertas para tentar se livrar de quem a seguia, enquanto Juni e Isadora riam descontroladamente dentro do carro maior. Então a sensação de ameaçar a sanidade mental daquela moça por alguns momentos pareceu realmente mais excitante do que de fato descobrir seu destino, e aquilo se tornou um hábito.

Sempre que havia qualquer mulher sozinha em um cruzamento ou sinal vermelho, lá iam elas ao encalço, de vidros fechados tornando quase impossível a visualização da dupla dentro do carro. Tudo se tornou tão divertido que passaram a fazer daquilo um ritual sagrado dos finais de semana. Sempre saíam juntas, bebiam bastante e então iam procurar aquelas pobres garotas desavisadas que cometiam a tolice de guiarem seus carros sozinhas de volta para casa. Quase sempre o resultado era o mesmo: a perseguida assustada, mudando de rota e por vezes até mesmo estacionando na frente de algum local bastante movimentado para buscar refúgio. Na maioria dos casos a brincadeira perdia a graça quando o carro perseguido parava, e então elas partiam para outra.

            Naquela noite não seria diferente. Juni estava ligeiramente preocupada com o fato de a amiga ter estado acomodada sobre o próprio braço - quase dormindo no balcão do bar - minutos antes, mas aparentemente a simples consciência de que uma nova caçada estava por vir fez com que Isadora parecesse mais acordada do que nunca. Começaram então a rodar pela cidade procurando a vítima daquela noite, no entanto esta parecia nunca aparecer.

Havia noites difíceis neste ofício e elas já haviam aprendido que sempre era mais fácil permanecer inicialmente pelas ruas que hospedavam maior número de bares e casas noturnas, mas naquela noite nem estes locais estavam colaborando. Todas as mulheres entravam em carros com acompanhantes ou vários amigos. Isadora que antes estivera animada, algum tempo de procura depois começava a dar sinais de sono novamente. Juni entendeu que naquela noite o ideal seria mesmo declarar desistência e guiou até a casa da amiga para que esta descansasse. Isadora teve as costas apoiadas pela mão da amiga até a porta de casa, onde se despediram e prometeram ligações no dia seguinte. O caminho de volta para a própria casa seria longo, então Juni decidiu colocar alguma coisa mais agitada ou dançante no som para manter-se esperta até chegar. Encontrou um CD antigo do Queen jogado pelo porta luvas e aumentou o volume vigorosamente quando ouviu os primeiros acordes de Bohemian Raphsody na voz do Freddie Mercury. Cantarolou junto despreocupadamente por algumas ruas, quando inusitadamente o alvo da busca anterior foi localizado.

            Aquela deveria definitivamente ser a cintura mais bonita que Juni já vira. Não era apenas a cintura, no entanto, havia todo um conjunto de pequenos detalhes apaixonantes que compunham a pintura viva ali representada, em corpo e forma de mulher. Cabelos longos, ondulados, negros e hipnóticos dançavam pelas costas da camisa social branca. A saia, também social e em tom mais fechado, cobria as coxas até logo acima dos joelhos, mas ainda assim era possível notar as formas acentuadas daquela parte de seu corpo. Ela carregava um terno feminino sobre a grande bolsa que levava a tiracolo. A musa de Vênus caminhou até um belo sedan na cor prata e entrou sozinha nele, parecendo tranquila e, como Juni adorava, desavisada. Feito ladrão, costumava valer-se do elemento surpresa. O sedan saiu da vaga onde estava estacionado e Juni deu partida em seu encalço. Era a primeira vez que faria aquilo sozinha.

            O início sempre transmitia a mesma monotonia. A mulher desavisada seguia seu rumo em calmaria até notar que o enorme carro preto já estava presente em seu retrovisor a mais de cinco quadras. Desta vez não foi diferente. A motorista do sedan deu os primeiros sinais de estar preocupada com a situação quando começou a sinalizar, como quem dá permissão para ser ultrapassada. Juni riu e cantarolou ainda mais alto, mantendo a velocidade estável. Visto que não adiantava, a mulher passou a acelerar, e então a garota sentiu a adrenalina explorar todos os poros do corpo. A caçada havia começado. O carro prata fez uma curva fechada ao lado do canal, Juni fez os pneus cantarem em seu encalço. A motorista do carro perseguido pareceu notar que era sério e guiou seu veículo para o outro lado da pista de modo sagaz. Juni sentiu o volante vibrar entre suas mãos - que suavam e pareciam fundidas ao couro do mesmo, mas insistentemente prosseguiu em sua cola, guiando o próprio veículo para segui-la.  A mulher do carro prata pareceu esquecer o pé no acelerador, guiava tão rápido que Juni sentia-se dirigindo na autoestrada, mas a seguiu provocando movimento de ziguezague para transmitir um ar mais insano e assustador. Ouviu-se uma sirene em algum local próximo, e a mulher do carro prata tentou dirigir até sua origem.

            Juni só se sentia tão viva assim quando perseguia alguém, fazia sexo ou jogava futebol. Sua vítima agora olhava o tempo todo para o retrovisor, mas era em vão, pois as películas de seu carro eram realmente muito escuras e tornava-se impossível enxergar a motorista. O carro prata começou a desviar intensamente a cada esquina, aumentando a velocidade à medida que a mulher percebia que seu perseguidor não reduzia ou desviava, ou que o som de sirene se tornava mais próximo. Juni ergueu as sobrancelhas quando sua vítima invadiu a avenida principal e desviou do veículo portador de sirene, e riu diabolicamente quando percebeu a decepção tomar conta no rosto refletido no retrovisor da perseguida: Era uma ambulância! A adolescente por pouco conseguiu desviar da mesma também, mas viu quando o motorista quase perdeu o controle e subiu com o veículo na calçada para evitar chocar-se contra seu carro enorme. Não havia tempo para pedir desculpas, o alvo estava escapando.

            Qualquer observador externo julgaria tratar-se de um “pega” ou semelhantes, mas definitivamente a mulher naquele sedan não desejava brincar de maneira alguma, e agora provavelmente temia por sua vida. Pensar naquilo deu à Juni a sensação de ter a vida de alguém nas mãos, e de algum modo bastante sádico aquilo lhe gerava um prazer imensurável. Era uma sensação luxuriosa de poder e controle da qual não pretendia desistir. O volume do aparelho de som potente estava no máximo e agora reverberava pelas ruas da cidade dando trilha sonora à perseguição.  I see a little silhouette of a man. Scaramouch, Scaramouch, will you do the fandango?

            Os pneus liberavam uma fumaça cinzenta no ar, o que transmitia à protagonista desafortunada ainda mais ideia de perseguição. O sangue borbulhava nas veias e Juni sentiu que isso era bom. O painel indicava velocidade a mais de cem, parecia que a qualquer momento o carro andaria apenas sobre as duas rodas traseiras. Havia um caminhão e um carro de passeio na avenida, e a jovem bêbada temeu que a vítima pedisse socorro, mas a mesma apenas “costurou” entre ambos, passando por um espaço tão pequeno que parecia impossível desviar. A garota sabia que seu carro possivelmente colidiria se tentasse a mesma manobra e naquele momento constatou que a mulher do carro prata era boa no volante. Decidiu forçar mais ainda a ultrapassagem, buzinando e acelerando para intimidar o carro de passeio, que desviou meio sem jeito para o acostamento e quase colidiu com um poste. Aquilo já não era mais uma brincadeira. O som das rodas cantando no asfalto era tão alto que quase poderia fundir-se com o som do carro. Spare him his life from this monstrosity.

            Tudo durou cerca de vinte minutos. Juni estava realmente se divertindo, mas sua vítima repentinamente pareceu tomar alguma decisão imprudente e começou a rumar para uma área mais soturna da cidade. Por alguns momentos a garota pensou em desistir, e então se lembrou daqueles cabelos, daquelas curvas... Agora o que tanto lhe excitava sofria o acréscimo de uma bela mulher como motorista. A musa de Juni parecia não saber muito bem para onde estava indo, os pneus levantavam pedrinhas do asfalto que batiam ruidosamente na lataria da pick-up. Finalmente o sedan entrou em um túnel em construção, que possivelmente não possuía saída. A jovem questionou-se sobre a lógica por trás de tal atitude, mas a velocidade era por demais elevada e seria difícil frear nestas circunstancias.

O carro da frente seguiu até o final do túnel escuro, e Juni se viu obrigada a reduzir a velocidade para evitar um acidente. Sua vítima estava encurralada, e agora nem mesmo ela sabia o que fazer. Pensou em sair do túnel de ré e ir embora dali, mas quando o cérebro começou a processar esta informação o sedan fez uma curva fechada a 180º em tamanha velocidade que os pneus reclamaram ruidosamente como garfo em quadro negro, deixando marcas no asfalto e levantando fumaça para todos os lados. Os faróis estavam altos e isso cegou Juni por alguns momentos, mas quando começou a enxergar com clareza novamente, viu que a ocupante do carro prata havia saltado de dentro do mesmo e agora caminhava em sua direção com um objeto prateado ao qual segurava com as duas mãos.

A visão ainda demorou a se acostumar e permitir a compreensão do que seria aquilo, mas logo as formas do objeto se tornaram inconfundíveis. O cano de cantos quadrados, a circunferência do gatilho com o dedo alvo ameaçando, o corpo envolto em couro muito bem posicionado na palma da mão delicada. Havia uma pistola automática apontada em sua direção. “Mãos no volante!” Ordenou em alto e bom tom a belíssima mulher que outrora fora vítima, e Juni obedeceu instintivamente, apavorada. “Desligue os faróis e saia do veículo lentamente, com as mãos na cabeça!” Só quando ela alcançou a janela do motorista da pick-up que Juni notou não ser apenas a arma que ela empunhava. Havia uma carteira com um distintivo, no qual se podiam ler algumas informações, mas Juni só conseguiu absorver as mais importantes: “Rafaela Serra Galvão – Polícia Federal”.

            Certo, aquele era literalmente o fim da linha, sem contar que deveria ser o dia mais azarado que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo poderia ter. E em qualquer geração. Juni pensou em recuar dali mesmo, de ré, e partir sem olhar para trás, deixando a mulher parada no meio do túnel, mas então lembrou que aquele carro não era blindado, e nada a impediria de disparar contra o vidro caso tentasse alguma gracinha. Decidiu obedecer. Abaixou o volume lentamente e abriu a porta na mesma velocidade. Viu quando a mulher recuou alguns passos para trás, provavelmente para ganhar vantagem e sair da linha de tiro, caso o ocupante do veículo também estivesse armado.

            Antes de sair do carro, girou a chave na ignição para desligar o motor e os faróis, então afundou os dedos das duas mãos nos fios ruivos em desordem que adornavam sua cabeça e lentamente jogou para o chão do túnel o pé esquerdo, calçado com aquele coturno gasto que fazia parte de seu visual de marginal – pelo qual tanto zelava propositalmente. Depois foi o segundo pé, e a adolescente deixou completamente o veículo, levantando-se na frente da policial. Rafaela precisou olhar para cima quando Juni ficou completamente em pé, constatando que mesmo sendo jovem, sua perseguidora era realmente bem mais alta que ela. A policial pareceu perder as palavras por alguns segundos, encarando aquela garota assustada em sua jaqueta de couro preto, meio punk, e seus alargadores charmosos. Sentiu que aquilo tudo deveria ser alguma brincadeira. Só poderia mesmo ser pegadinha de alguma das amigas, mas como elas poderiam ter armado aquela cena toda? Lembrar-se disso fez com que a raiva de Rafaela voltasse subitamente. Agora era ela quem sentia o sangue ferver, e sentia prazer em ver aquela desgraçada tão assustada, com expressão que quase implorava por um pouco de misericórdia.

            “Mãos no veículo, afaste as pernas” Juni obedeceu em silêncio. O álcool e o susto pareciam tê-la emudecido naquele momento. Tudo o que conseguiu fazer - que fugisse à ordem - foi fitar os olhos castanhos da policial antes de se virar completamente. Rafaela notou que agora era ela quem sentia prazer em fazer aquilo. Não era como se fosse realmente uma pessoa vingativa, mas sua carreira mal havia começado e já havia muitos inimigos com os quais se preocupar, ainda vinha aquela garota estúpida querendo brincar de corrida no meio da madrugada. A policial passou então a tatear cintura e bolsos da jovem, buscando qualquer coisa que pudesse ameaçar sua segurança antes de leva-la para a delegacia. Foi, no entanto, aquele toque - presenteado pela mão de uma mulher segura e doce, ao mesmo tempo – que fez com que Juni se lembrasse de quem era, e do que havia lhe levado até ali. Então virou-se, sem temer um pedaço de ferro quente lhe perfurando a carne. Ficou de frente para Rafaela, quando de um minuto para o outro já sabia o que fazer, e estava decidida a colocar em prática. Sweet dreams are made of this.

            “Onde mais tu pretendes me mandar colocar as mãos?” Finalmente respondeu, agora encarando a policial de modo sóbrio e decidido, erguendo uma das sobrancelhas com meio sorriso no rosto, ainda com as mãos levantadas. A voz rouca de Juni atingiu os ouvidos de Rafaela como um disparo, e ela sentiu o rosto esquentar. Não saberia explicar a razão. Teve vontade de rir daquela petulância, não por achar realmente engraçado, mas pelo nervosismo. Some of them want to use you.
- Se eu fosse você, tomaria cuidado com as palavras, garota. A situação pode esquentar pra você – Rafaela segurou a arma com ainda mais firmeza, mirando o peito de Juni. “por que diabos eu usei a palavra ‘esquentar’?” Perguntou-se logo em seguida, percebendo o equívoco. Talvez a intenção fosse expressar o quão ruim aquilo poderia ser para a adolescente, mas naquele momento foi traída pelo próprio cérebro.
- Me pergunto agora, senhorita Galvão, o que te aquece mais? O calor de minhas palavras, ou a adrenalina de ser caçada? – Juni sorriu ainda mais quando notou que suas provocações faziam a policial desviar os olhos dos seus. Estava mesmo perdida, então não custava nada arriscar. – Que tal baixar essa arma e...

            Mas quando Juni fez menção de tocar o braço de Rafaela, a última reagiu imediatamente, encostando o cano da arma entre os seios da adolescente com força e ordenando em voz alta e intimidadora: “Não se atreva a dar mais nenhum passo!” Juni novamente se assustou, mas já havia posto em prática o usufruto do sangue frio, habitual ao território de caça. Naquele momento, apesar da respiração descompassada, ela tinha peito de aço. Em mais um choque de adrenalina, a adolescente pôs em prática o que fazia de melhor, e antes que a policial pudesse evitar, sua perna direita executou um movimento rápido e firme, chocando o joelho contra as pernas da mulher, provocando desequilíbrio. Rafaela sentiu o próprio corpo pender para o lado. O gatilho da arma foi pressionado. Some of them wanna get used by you.
           
(Continua)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os livros no plástico



E haviam tantos livros teus que eu queria ter lido...

Não recordo mais com saudade, mas com nostalgia. O que vem a ser diferente em algumas ocasiões, como pensamentos interrompidos. Como aquela música que tantas vezes já tocou, mas que hoje, ao tocar novamente, me fez sentir como da primeira vez. Quando a conheci. Quando a aprendi. Aprendi a música, te aprendi.

Nós deveríamos ter arrumado mais o quarto. Quando eu tomava a garrafa inteira de café, reclamando da rinite e dos teus constantes pedidos de ajuda para fazer qualquer coisa que, no momento descansando do trabalho com um livro entre os dedos, não dei atenção. Não me apeteceu.
Não sinto vontade de voltar atrás, mas até bem pouco tempo, nem sentia vontade de lembrar. Já não sentia nada, como dizia a música, a tal música, que dizias ser tua, e eu dizia ser minha, e não mais dizíamos nada. Longas horas de silêncio anestésico, curandeiro, reconciliador.

E eu te dizia qualquer bobagem, que tomavas como lei sagrada de existência. Respondias-me com esforço e exagerada eloquência, o que sempre me parecia um pouco mais estúpido, vão, torpe do que gostarias de soar.
Divertia-me te vendo ler meus poemas, crônicas e resenhas, e espalhar tudo sobre a cama em desordem, tentando me aprender, admirando meu parco talento, me cobrando quase que diariamente um pouco mais de exposição, um pouco mais de intimidade, um pouco mais de mim. Dei-te muito, não tudo. Não teria dado o que nem eu sei se tenho. Fui egoísta, sou, segui sendo.

Te cobrei maturidade, enquanto choramingavas lamentando o passado, e esgotavas minha já tão rara paciência. Te exigi mais cultura, para sequer se permitir me questionar, quando me julgavas errando, sem saber muito bem o motivo, ou quando eu derramava o conteúdo do cinzeiro por acidente sobre o último lençol limpo de nosso armário.

E hoje, te dou razão, sobre uma das últimas coisas que me disseste. Eu não poderia viver assim. Não estava vivendo de fato. Não suportava que minha alma livre se comprimisse em tão poucos metros quadrados de intelecto; mental, gestual, habitual. Nunca pude caber em ti, porque meu espírito extravasava as paredes do quarto, da casa, o quarteirão...
Então sim, te dou razão, toda razão. Mas não, não me refiro ao material – que tanto te prende e apega. Não me refiro ao cortiço, nem às dificuldades de uma vida a dois. Me refiro ao mundo pequeno, limitado e trôpego que a tua sufocante persistência me acometia. Não saí de casa, saí de ti.

E tem tantos livros teus que eu gostaria de ter lido... Livros aos quais nem te davas ao trabalho de espanar esporadicamente. Livros que se empilhavam na prateleira metálica, e que só eram manipulados por mim. Alguns ainda no plástico de compra, envelhecendo junto conosco, fora de uso, mais meus do que teus.

Não sei qual caminho escolheste pra ti, e como já disse, não sinto saudade.

Aquela música hoje tocou, enquanto eu tomava meu café e fumava meu cigarro. Contemplei o céu fechado, chuvoso, lindo. O céu daqueles dias que vivemos no passado... 
E senti falta dos teus livros.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Escova de dentes



Na ocasião na qual nos conhecemos, ela estava escovando os dentes apressadamente no banheiro da faculdade. Foi impossível não notar as manobras que fazia com aquela escova apropriada para quem usa aparelho de correção dentária. Era seu primeiro ano morando sozinha, longe da mãe e de sua terra natal, ainda não havia se acostumado com a obrigação de fazer compras do mês, e naquela manhã fatídica havia descoberto o término do creme dental assim que saiu do banho, então precisou tomar cuidado de cumprimentar o porteiro do prédio e a moça da farmácia – onde entrou no caminho para comprar um novo creme dental – de longe, cobrir a boca com a mão e escovar os dentes na primeira pia que viu pela frente. No momento em que entrei no banheiro aos prantos, após desligar o celular do lado de fora do mesmo e dar de cara com ela – com aquela expressão interrogativa e constrangida que posteriormente conheci tão bem – eu não sabia de toda a desventura que havia passado, mas algo naquelas sobrancelhas arqueadas de modo inocente e surpreso me confortou de tal modo, que sem me importar com o fato de que nunca havíamos nos visto antes, a abracei involuntariamente e chorei copiosamente em seus braços. Ela ficou por alguns minutos estática, braços ensaiando devolver meu abraço e escova de dentes na boca cheia de espuma.

            Marina – como descobri se chamar algum tempo após o ocorrido - era a pessoa mais doce da qual já tive notícia. Apesar de toda a calma e gentileza que cada milímetro de seu corpo transpassava para quem quer que a conhecesse, havia algo de jocoso em seu sorriso, e ela apresentava aquele comportamento lépido, assaz apaixonante, quando sentia-se animada com algo novo que lhe chamava atenção. Nos pegamos de amizade após aquele episódio inusitado, e os dias ao lado dela pareciam maravilhosos, já nem lembrava mais da moça por quem eu chorava naquela manhã. Pouco falava, minha amiga. Era uma excelente ouvinte. Eram raras as vezes em que a ouvia comentar algum romance passado, e mais raras ainda as que se declarava interessada em alguém. Na verdade, recordando agora, acredito que nunca tenha recebido dela tais informações, apenas fantasiava que ela estaria observando algum rapaz pelo campus e a partir daí construía toda uma teoria em meu universo particular envolvendo o tipo de pessoa que chamaria sua atenção e se em algum momento de sua vida ela aceitaria ter um caso com alguém do mesmo sexo. Não me julguem por isso, pois se a tivessem conhecido como conheci, pensariam o mesmo.

            Na realidade, aos meus olhos Marina era irresistível para qualquer um que a conhecesse, por isso quase sempre que eu notava interesse de algum rapaz em sua pessoa me era amaríssima a ideia de que ela correspondesse. Não era a melhor das ideias sentir ciúmes de uma pessoa tão envolvente, pois precisaria dedicar grande parte de meu tempo ficando paranoica com qualquer nova chamada em seu telefone ou qualquer aproximação masculina, e no final acabava sendo apenas a mãe buscando notícias de sua filha ou algum colega de turma pedindo informações sobre as vagas para estágio no quadro de avisos. Era à toa, mas era inevitável. Eu sabia que se continuasse naquele caminho fatalmente acabaria apaixonada por ela e pondo tudo a perder, mas preferi deixar ao encargo da vida decidir por mim e por meus sentimentos. Não precisei de muito tempo para compreender como ela funcionava, pois tratava-se de uma pessoa livre e transparente em tempo integral. Ela me permitia conhece-la, me procurava constantemente, me convidava para fazer tudo em sua companhia. Sentia-me agraciada, como quem recebe das mãos do próprio Prometeu o fogo dos deuses. Aliás, quando Marina sorria eu acreditava que todos os deuses sorriam também, contemplando a beleza que não poderia caber em suas compreensões.

            Ela escrevia sonetos, mencionei isso? Além de ser excelente pianista, escrevia de forma tão bela, e ao mesmo tempo tão lacônica, tão precisa, que pouco do que estava presente naquelas linhas com as quais eu era presenteada constantemente me traziam à luz o que estava prestes a acontecer, mas que eu não compreendia. Alguns meses após nosso primeiro contato, nossa amizade era sólida e intensa, regada de carinho e zelo mútuo. Eu sabia, no entanto, que seria apenas aquilo. Jamais teria coragem de tentar dar um passo adiante com ela, mesmo sabendo que se tratava de uma pessoa compreensiva e gentil – e mesmo que ela soubesse de minha orientação sexual – até então só a havia ouvido falar sobre amantes do sexo masculino, e eu sabia que talvez se revelasse a ela como realmente me sentia em sua presença, poderia destruir tudo o que já havia cultivado até então. Preferi calar. Algum tempo se passou em que tudo permaneceu do mesmo modo, mas com a aproximação das férias Marina me disse que viajaria para o Sul para ver a família, e que se eu assim desejasse poderia acompanha-la. Fiquei surpresa com o convite, mas é evidente que aceitei para passar mais tempo em sua companhia e saber mais sobre sua vida.

            A viagem correu bem. Conheci sua mãe – que eu parecia já conhecer há tempos, e quem notei ter a mesma impressão sobre mim, tudo graças aos relatos da filha – e sua irmã caçula, que eram todas as pessoas que viviam na casa, levando em conta que Marina era órfã de pai. Melissa – a irmã de Marina - era um ano mais nova, e parecia me sorrir de modo estranho quando a irmã me apresentou à ela. Notei que houve uma troca de olhares ligeiramente tensa entre elas, mas permaneci em quietude e discrição afim de não interferir em assuntos de família. No terceiro dia de viagem, porém, Melissa invadiu o quarto de hóspedes onde eu dormia no meio da madrugada e antes que eu pudesse ter qualquer reação, arrancou o lençol de mim e danou-se a beijar e tatear meu corpo, como míope buscando a lente de contato perdida. Parecia ter destreza nula em quesitos sexuais, de modo que mais me machucava do que excitava. Notei que talvez nunca tivesse feito nada daquilo antes, e acreditasse que aquele seria o meio mais prático de chamar minha atenção. Após os segundos iniciais de choque ao ser acordada daquela maneira e ter a menina explorando meu colo, pescoço e busto com tanta sagacidade, consegui raciocinar melhor e segurei-a pelos pulsos de modo terno, apenas para que ela parasse. “Calma. Você não precisa fazer nada disso. Se queria sair comigo, por que não me disse?” Em outras circunstancias eu talvez tivesse apenas aproveitado o momento e me divertido, mas aquela era uma situação excepcional. Aquela era a irmã de minha querida amiga, e era também uma garota obviamente virgem e mais assustada do que eu ficara naquele momento, mas de modo ainda mais tímido e retraído. Ela recuou nervosamente diante de minha interrupção e começou a tremer. Tive medo que aquilo fosse algum tipo de convulsão, mas quando ela começou a falar compreendi ser apenas nervosismo.

            De modo bastante atrapalhado ela me explicou que havia notado o modo que eu olhava para a irmã dela, que desejava uma garota que lhe olhasse daquele modo, e que sentia muita raiva da mãe por aceitar tudo o que vinha da irmã mais velha enquanto ela era tratada como segundo plano. Lá estava eu diante de um pequeno drama familiar clichê. Senti-me tão constrangida com tudo aquilo que demorei para absorver as frases e coloca-las em ordem dentro do cérebro, mas apenas quando Melissa foi embora consegui resgatar alguns trechos de seu monólogo que me deixaram intrigada. “A mamãe aceita tudo o que a Marina faz, e se ela trouxer uma namorada em casa a mamãe trata bem e acha bonito. Se eu fizer o mesmo, sou deserdada”.  Certo... Qual o tempo verbal nisso? Isso é pretérito? É metáfora? É presente contínuo? Não conseguia pensar em nada a não ser Marina e sua reação quando escutasse o que aconteceu. Claro que eu contaria, afinal, era sua irmã caçula e ela deveria saber o que a menina sentia em relação a ela e à mãe. Temi, no entanto, contar o segredo de Melissa e ela novamente comentar sobre o modo que eu olhava para minha amiga. Aquilo não seria nada agradável... Eu precisava ser honesta com ela.

            Escolhi um local de profundo bom gosto, em um trecho da praia onde não passavam muitas pessoas. Sentamos na toalha estendida sobre a areia, e eu deitei a cabeça em suas coxas como costumávamos fazer na faculdade. Marina havia concordado em ouvir o que eu tinha pra dizer, e mesmo tendo ficado visivelmente curiosa, aguentou o caminho todo quietinha até ali, sem me metralhar de perguntas como seria típico dela fazer, portanto merecia ser recompensada, mesmo sabendo que aquilo poderia lhe parecer desagradável. Nos minutos seguintes narrei à minha amiga exatamente o que havia acontecido na véspera, e a observei estreitar aquele belo par de olhos verdes de um modo bem fofo e parar de dedilhar meus cabelos à medida que a história se tornava mais tensa. Temi que ela não acreditasse em mim, e pensasse que eu estava tentando envenena-la contra a irmã ou coisa assim, mas ao término de minha narrativa ela se limitou em ordenar de modo seco: “sente-se”. Obedeci sem questionar, apavorada com a ideia do que viria pela frente, mas tudo o que se passou pela minha cabeça naquela fração de segundos estava distante do que realmente ocorreu. Marina debruçou-se sobre minhas coxas, apoiou as duas mãos em torno das mesmas e uniu seus lábios aos meus de modo cálido e intenso. Parecia que toda a aura de delicadeza e doçura que pairava ao seu redor havia se desfeito, dando lugar a uma mulher madura e sagaz. Ela sabia o que estava fazendo. Correspondi o beijo que agora já envolvia nossas línguas em uma verdadeira guerra por espaço. Minha amiga aliviou o peso das mãos que sustentavam seu corpo, empurrando o meu com o próprio tórax para que eu deitasse na toalha. Novamente obedeci, desta vez realmente grata por estar sendo dominada. Ela encaixou a coxa entre as minhas e abandonou meus lábios. Por alguns segundos senti que me faltava o ar... Era vital manter aquele beijo, aquele toque, aquele contato. Sua boca ainda era latente na minha mesmo quando ela se afastou ligeiramente de meu rosto, mas logo compreendi a razão. Agora ela os utilizava para explorar meu pescoço, a região atrás de minha orelha e meu colo. Senti que precisava permitir que ela desse sequência ao seu próprio ritmo, para evitar que se sentisse intimidada e interrompesse tudo ali mesmo.

            Por outro lado uma parte minha estava tão excitada que desejava arrancar aquele vestido de seu corpo com os dentes e virar por cima dela com toda fúria que estava se acumulando dentro de mim. Não era uma fúria irada, e sim lasciva. Decidi retribuir as carícias, começando de modo sutil. Percorri as pontas dos dedos por suas costas e senti que os pelos do braço estavam arrepiados. Levei minha própria boca ao seu pescoço e o mordisquei. Senti o coração disparar quando ela emitiu um gemido breve e discreto próximo ao meu ouvido. Aquele era o sinal verde, então decidi partir para o ataque. Sem dar chances para que ela pensasse, envolvi sua cintura com um dos braços e inverti nossas posições, deixando-a agora com as costas na toalha. Arranquei minha própria camisa quando notei em seu rosto a expressão desejosa, mordendo com força metade do lábio inferior. Aquela cena luxuriosa e quente me fazia idealizar tudo o que eu gostaria de fazer com ela e agora podia. Finalmente a despi, lentamente, enquanto beijava cada parte de seu corpo e a ouvia emitir cada vez mais os sons que me incentivavam e indicavam estar no caminho certo. As pontas de meus dedos percorriam suas coxas externamente, e depois internamente, enquanto a boca auxiliava em movimentos circulares e lentos com a ponta da língua em seus seios alvos e confortáveis. Alcancei, após algum tempo de preparo, meu objetivo. A região mais tropical de seu corpo, de onde as cachoeiras transbordavam desejo e ansiedade. Percorri com meu pequeno veleiro aquele rio transbordante de prazer enquanto a ouvia entonar melodias sagradas em agradecimento á minha oferenda profana, quase pervertida. As costas de Marina arqueavam e se desprendiam do chão à medida que meus dedos cumpriam seu papel, mas antes que ela atingisse o ápice de nossa jornada, encaixei as orelhas entre suas coxas e concluí a navegação com o músculo mais forte de meu corpo. Ela se sentia tão livre que permitiu-se extravasar, tremer e gritar tudo o que precisava. Eu me sentia no topo do mundo.

            Ao término, retornei para o seu lado e deitei lentamente no espaço que ela já havia reservado para mim. Minha amiga inesperadamente segurou minha mandíbula com força e disse entre dentes “você é minha, e a próxima vadia que tentar lhe passar a mão vai se ver comigo”. E me beijou novamente. Eu quis argumentar que 'a vadia' em questão era a irmã dela, mas preferi novamente calar e permitir que tudo seguisse o fluxo da correnteza.
            Desde então, sempre que entramos de férias, viajamos para a casa de sua família e damos um jeito de repetir aquela tarde, em nosso canto na praia. Marina hoje em dia não se esquece mais de comprar creme dental, porque sempre deixo um aviso na porta de nossa geladeira.