sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Um exército de mim (Parte I)


NA: Sugiro que escutem Bohemian Raphsody na primeira parte do conto, e Sweet Dreams - versão da Emily Browning na sequência. 

Juni não estava realmente preocupada em ter virado a sétima dose de tequila garganta abaixo. A carteira falsa lhe garantia maior idade pelo tempo que fosse preciso, e além do mais, se tentassem lhe levar para a delegacia haveria sempre um cartão de crédito - da conta de dependente do pai - que pagaria até um avião, se assim desejasse, então a propina para a polícia também estava garantida. Isadora estava debruçada no balcão ao seu lado, e uma das mechas de seu cabelo claro e liso agora se encontrava completamente imersa no copo de uísque. “Isa, bora?” Juni sussurrou no ouvido da amiga percebendo que naquele bar – o quarto da noite – não haveria mais muito com o que se divertir. Isadora apenas assentiu e seguiu a jovem de cabelos curtos e jaqueta de couro até o carro. 

            Nenhuma das duas havia feito dezoito ainda. Eram da mesma sala desde o primeiro ano do ensino médio e estavam em ano de vestibular. Juni era a mais esperta, e por isso acreditava nunca precisar estudar. Na verdade, acreditava não precisar fazer absolutamente nada. Desde os quinze anos jogava futebol no sub 17 feminino de um time grande, era filha de um grande empresário do ramo automotivo e como era órfã de mãe jamais precisara se preocupar com o que dizer quando chegava bêbada em casa. O pai lhe permitia liberdades, como sair com o carro, ou não dar satisfações de pra onde estava indo desde os catorze, e por vezes a garota sentia que ele pensava que ela era um garoto. Nunca se importou muito, na verdade. Mantinha-se em casa a política do “meu espaço, seu espaço” e para qualquer confusão em que ela acabasse se envolvendo a recomendação paterna era a mesma: “tem uma arma no porta luvas de seu carro, se for em cana ligue para o nosso advogado, mas antes de entrar na viatura, verifique se não há acordo”. Não era de se estranhar que às duas da manhã estivesse na rua com a amiga, ligeiramente bêbada e agora dirigindo a toda velocidade o enorme modelo utilitário preto e peliculado com o qual gostava de aproveitar o final de semana. Era quase um ritual das duas – Isadora e Juni, após muitas doses em muitos bares, começava a temporada de caça.

            Foi de Isadora a ideia inicial, meses antes, quando esta se declarou apaixonada a primeira vista por uma moça que dirigia um carro popular, que emparelhou com o de Juni no sinal vermelho. Aos berros então, ordenou à amiga que seguisse a garota para descobrir onde morava, ou onde estava indo. Algumas ruas depois, porém, a perseguida acabou notando a presença constante da pick-up preta para onde quer que fizesse a curva e pareceu realmente assustada, passando a dirigir em alta velocidade, entrando em ruas cada vez mais escuras e desertas para tentar se livrar de quem a seguia, enquanto Juni e Isadora riam descontroladamente dentro do carro maior. Então a sensação de ameaçar a sanidade mental daquela moça por alguns momentos pareceu realmente mais excitante do que de fato descobrir seu destino, e aquilo se tornou um hábito.

Sempre que havia qualquer mulher sozinha em um cruzamento ou sinal vermelho, lá iam elas ao encalço, de vidros fechados tornando quase impossível a visualização da dupla dentro do carro. Tudo se tornou tão divertido que passaram a fazer daquilo um ritual sagrado dos finais de semana. Sempre saíam juntas, bebiam bastante e então iam procurar aquelas pobres garotas desavisadas que cometiam a tolice de guiarem seus carros sozinhas de volta para casa. Quase sempre o resultado era o mesmo: a perseguida assustada, mudando de rota e por vezes até mesmo estacionando na frente de algum local bastante movimentado para buscar refúgio. Na maioria dos casos a brincadeira perdia a graça quando o carro perseguido parava, e então elas partiam para outra.

            Naquela noite não seria diferente. Juni estava ligeiramente preocupada com o fato de a amiga ter estado acomodada sobre o próprio braço - quase dormindo no balcão do bar - minutos antes, mas aparentemente a simples consciência de que uma nova caçada estava por vir fez com que Isadora parecesse mais acordada do que nunca. Começaram então a rodar pela cidade procurando a vítima daquela noite, no entanto esta parecia nunca aparecer.

Havia noites difíceis neste ofício e elas já haviam aprendido que sempre era mais fácil permanecer inicialmente pelas ruas que hospedavam maior número de bares e casas noturnas, mas naquela noite nem estes locais estavam colaborando. Todas as mulheres entravam em carros com acompanhantes ou vários amigos. Isadora que antes estivera animada, algum tempo de procura depois começava a dar sinais de sono novamente. Juni entendeu que naquela noite o ideal seria mesmo declarar desistência e guiou até a casa da amiga para que esta descansasse. Isadora teve as costas apoiadas pela mão da amiga até a porta de casa, onde se despediram e prometeram ligações no dia seguinte. O caminho de volta para a própria casa seria longo, então Juni decidiu colocar alguma coisa mais agitada ou dançante no som para manter-se esperta até chegar. Encontrou um CD antigo do Queen jogado pelo porta luvas e aumentou o volume vigorosamente quando ouviu os primeiros acordes de Bohemian Raphsody na voz do Freddie Mercury. Cantarolou junto despreocupadamente por algumas ruas, quando inusitadamente o alvo da busca anterior foi localizado.

            Aquela deveria definitivamente ser a cintura mais bonita que Juni já vira. Não era apenas a cintura, no entanto, havia todo um conjunto de pequenos detalhes apaixonantes que compunham a pintura viva ali representada, em corpo e forma de mulher. Cabelos longos, ondulados, negros e hipnóticos dançavam pelas costas da camisa social branca. A saia, também social e em tom mais fechado, cobria as coxas até logo acima dos joelhos, mas ainda assim era possível notar as formas acentuadas daquela parte de seu corpo. Ela carregava um terno feminino sobre a grande bolsa que levava a tiracolo. A musa de Vênus caminhou até um belo sedan na cor prata e entrou sozinha nele, parecendo tranquila e, como Juni adorava, desavisada. Feito ladrão, costumava valer-se do elemento surpresa. O sedan saiu da vaga onde estava estacionado e Juni deu partida em seu encalço. Era a primeira vez que faria aquilo sozinha.

            O início sempre transmitia a mesma monotonia. A mulher desavisada seguia seu rumo em calmaria até notar que o enorme carro preto já estava presente em seu retrovisor a mais de cinco quadras. Desta vez não foi diferente. A motorista do sedan deu os primeiros sinais de estar preocupada com a situação quando começou a sinalizar, como quem dá permissão para ser ultrapassada. Juni riu e cantarolou ainda mais alto, mantendo a velocidade estável. Visto que não adiantava, a mulher passou a acelerar, e então a garota sentiu a adrenalina explorar todos os poros do corpo. A caçada havia começado. O carro prata fez uma curva fechada ao lado do canal, Juni fez os pneus cantarem em seu encalço. A motorista do carro perseguido pareceu notar que era sério e guiou seu veículo para o outro lado da pista de modo sagaz. Juni sentiu o volante vibrar entre suas mãos - que suavam e pareciam fundidas ao couro do mesmo, mas insistentemente prosseguiu em sua cola, guiando o próprio veículo para segui-la.  A mulher do carro prata pareceu esquecer o pé no acelerador, guiava tão rápido que Juni sentia-se dirigindo na autoestrada, mas a seguiu provocando movimento de ziguezague para transmitir um ar mais insano e assustador. Ouviu-se uma sirene em algum local próximo, e a mulher do carro prata tentou dirigir até sua origem.

            Juni só se sentia tão viva assim quando perseguia alguém, fazia sexo ou jogava futebol. Sua vítima agora olhava o tempo todo para o retrovisor, mas era em vão, pois as películas de seu carro eram realmente muito escuras e tornava-se impossível enxergar a motorista. O carro prata começou a desviar intensamente a cada esquina, aumentando a velocidade à medida que a mulher percebia que seu perseguidor não reduzia ou desviava, ou que o som de sirene se tornava mais próximo. Juni ergueu as sobrancelhas quando sua vítima invadiu a avenida principal e desviou do veículo portador de sirene, e riu diabolicamente quando percebeu a decepção tomar conta no rosto refletido no retrovisor da perseguida: Era uma ambulância! A adolescente por pouco conseguiu desviar da mesma também, mas viu quando o motorista quase perdeu o controle e subiu com o veículo na calçada para evitar chocar-se contra seu carro enorme. Não havia tempo para pedir desculpas, o alvo estava escapando.

            Qualquer observador externo julgaria tratar-se de um “pega” ou semelhantes, mas definitivamente a mulher naquele sedan não desejava brincar de maneira alguma, e agora provavelmente temia por sua vida. Pensar naquilo deu à Juni a sensação de ter a vida de alguém nas mãos, e de algum modo bastante sádico aquilo lhe gerava um prazer imensurável. Era uma sensação luxuriosa de poder e controle da qual não pretendia desistir. O volume do aparelho de som potente estava no máximo e agora reverberava pelas ruas da cidade dando trilha sonora à perseguição.  I see a little silhouette of a man. Scaramouch, Scaramouch, will you do the fandango?

            Os pneus liberavam uma fumaça cinzenta no ar, o que transmitia à protagonista desafortunada ainda mais ideia de perseguição. O sangue borbulhava nas veias e Juni sentiu que isso era bom. O painel indicava velocidade a mais de cem, parecia que a qualquer momento o carro andaria apenas sobre as duas rodas traseiras. Havia um caminhão e um carro de passeio na avenida, e a jovem bêbada temeu que a vítima pedisse socorro, mas a mesma apenas “costurou” entre ambos, passando por um espaço tão pequeno que parecia impossível desviar. A garota sabia que seu carro possivelmente colidiria se tentasse a mesma manobra e naquele momento constatou que a mulher do carro prata era boa no volante. Decidiu forçar mais ainda a ultrapassagem, buzinando e acelerando para intimidar o carro de passeio, que desviou meio sem jeito para o acostamento e quase colidiu com um poste. Aquilo já não era mais uma brincadeira. O som das rodas cantando no asfalto era tão alto que quase poderia fundir-se com o som do carro. Spare him his life from this monstrosity.

            Tudo durou cerca de vinte minutos. Juni estava realmente se divertindo, mas sua vítima repentinamente pareceu tomar alguma decisão imprudente e começou a rumar para uma área mais soturna da cidade. Por alguns momentos a garota pensou em desistir, e então se lembrou daqueles cabelos, daquelas curvas... Agora o que tanto lhe excitava sofria o acréscimo de uma bela mulher como motorista. A musa de Juni parecia não saber muito bem para onde estava indo, os pneus levantavam pedrinhas do asfalto que batiam ruidosamente na lataria da pick-up. Finalmente o sedan entrou em um túnel em construção, que possivelmente não possuía saída. A jovem questionou-se sobre a lógica por trás de tal atitude, mas a velocidade era por demais elevada e seria difícil frear nestas circunstancias.

O carro da frente seguiu até o final do túnel escuro, e Juni se viu obrigada a reduzir a velocidade para evitar um acidente. Sua vítima estava encurralada, e agora nem mesmo ela sabia o que fazer. Pensou em sair do túnel de ré e ir embora dali, mas quando o cérebro começou a processar esta informação o sedan fez uma curva fechada a 180º em tamanha velocidade que os pneus reclamaram ruidosamente como garfo em quadro negro, deixando marcas no asfalto e levantando fumaça para todos os lados. Os faróis estavam altos e isso cegou Juni por alguns momentos, mas quando começou a enxergar com clareza novamente, viu que a ocupante do carro prata havia saltado de dentro do mesmo e agora caminhava em sua direção com um objeto prateado ao qual segurava com as duas mãos.

A visão ainda demorou a se acostumar e permitir a compreensão do que seria aquilo, mas logo as formas do objeto se tornaram inconfundíveis. O cano de cantos quadrados, a circunferência do gatilho com o dedo alvo ameaçando, o corpo envolto em couro muito bem posicionado na palma da mão delicada. Havia uma pistola automática apontada em sua direção. “Mãos no volante!” Ordenou em alto e bom tom a belíssima mulher que outrora fora vítima, e Juni obedeceu instintivamente, apavorada. “Desligue os faróis e saia do veículo lentamente, com as mãos na cabeça!” Só quando ela alcançou a janela do motorista da pick-up que Juni notou não ser apenas a arma que ela empunhava. Havia uma carteira com um distintivo, no qual se podiam ler algumas informações, mas Juni só conseguiu absorver as mais importantes: “Rafaela Serra Galvão – Polícia Federal”.

            Certo, aquele era literalmente o fim da linha, sem contar que deveria ser o dia mais azarado que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo poderia ter. E em qualquer geração. Juni pensou em recuar dali mesmo, de ré, e partir sem olhar para trás, deixando a mulher parada no meio do túnel, mas então lembrou que aquele carro não era blindado, e nada a impediria de disparar contra o vidro caso tentasse alguma gracinha. Decidiu obedecer. Abaixou o volume lentamente e abriu a porta na mesma velocidade. Viu quando a mulher recuou alguns passos para trás, provavelmente para ganhar vantagem e sair da linha de tiro, caso o ocupante do veículo também estivesse armado.

            Antes de sair do carro, girou a chave na ignição para desligar o motor e os faróis, então afundou os dedos das duas mãos nos fios ruivos em desordem que adornavam sua cabeça e lentamente jogou para o chão do túnel o pé esquerdo, calçado com aquele coturno gasto que fazia parte de seu visual de marginal – pelo qual tanto zelava propositalmente. Depois foi o segundo pé, e a adolescente deixou completamente o veículo, levantando-se na frente da policial. Rafaela precisou olhar para cima quando Juni ficou completamente em pé, constatando que mesmo sendo jovem, sua perseguidora era realmente bem mais alta que ela. A policial pareceu perder as palavras por alguns segundos, encarando aquela garota assustada em sua jaqueta de couro preto, meio punk, e seus alargadores charmosos. Sentiu que aquilo tudo deveria ser alguma brincadeira. Só poderia mesmo ser pegadinha de alguma das amigas, mas como elas poderiam ter armado aquela cena toda? Lembrar-se disso fez com que a raiva de Rafaela voltasse subitamente. Agora era ela quem sentia o sangue ferver, e sentia prazer em ver aquela desgraçada tão assustada, com expressão que quase implorava por um pouco de misericórdia.

            “Mãos no veículo, afaste as pernas” Juni obedeceu em silêncio. O álcool e o susto pareciam tê-la emudecido naquele momento. Tudo o que conseguiu fazer - que fugisse à ordem - foi fitar os olhos castanhos da policial antes de se virar completamente. Rafaela notou que agora era ela quem sentia prazer em fazer aquilo. Não era como se fosse realmente uma pessoa vingativa, mas sua carreira mal havia começado e já havia muitos inimigos com os quais se preocupar, ainda vinha aquela garota estúpida querendo brincar de corrida no meio da madrugada. A policial passou então a tatear cintura e bolsos da jovem, buscando qualquer coisa que pudesse ameaçar sua segurança antes de leva-la para a delegacia. Foi, no entanto, aquele toque - presenteado pela mão de uma mulher segura e doce, ao mesmo tempo – que fez com que Juni se lembrasse de quem era, e do que havia lhe levado até ali. Então virou-se, sem temer um pedaço de ferro quente lhe perfurando a carne. Ficou de frente para Rafaela, quando de um minuto para o outro já sabia o que fazer, e estava decidida a colocar em prática. Sweet dreams are made of this.

            “Onde mais tu pretendes me mandar colocar as mãos?” Finalmente respondeu, agora encarando a policial de modo sóbrio e decidido, erguendo uma das sobrancelhas com meio sorriso no rosto, ainda com as mãos levantadas. A voz rouca de Juni atingiu os ouvidos de Rafaela como um disparo, e ela sentiu o rosto esquentar. Não saberia explicar a razão. Teve vontade de rir daquela petulância, não por achar realmente engraçado, mas pelo nervosismo. Some of them want to use you.
- Se eu fosse você, tomaria cuidado com as palavras, garota. A situação pode esquentar pra você – Rafaela segurou a arma com ainda mais firmeza, mirando o peito de Juni. “por que diabos eu usei a palavra ‘esquentar’?” Perguntou-se logo em seguida, percebendo o equívoco. Talvez a intenção fosse expressar o quão ruim aquilo poderia ser para a adolescente, mas naquele momento foi traída pelo próprio cérebro.
- Me pergunto agora, senhorita Galvão, o que te aquece mais? O calor de minhas palavras, ou a adrenalina de ser caçada? – Juni sorriu ainda mais quando notou que suas provocações faziam a policial desviar os olhos dos seus. Estava mesmo perdida, então não custava nada arriscar. – Que tal baixar essa arma e...

            Mas quando Juni fez menção de tocar o braço de Rafaela, a última reagiu imediatamente, encostando o cano da arma entre os seios da adolescente com força e ordenando em voz alta e intimidadora: “Não se atreva a dar mais nenhum passo!” Juni novamente se assustou, mas já havia posto em prática o usufruto do sangue frio, habitual ao território de caça. Naquele momento, apesar da respiração descompassada, ela tinha peito de aço. Em mais um choque de adrenalina, a adolescente pôs em prática o que fazia de melhor, e antes que a policial pudesse evitar, sua perna direita executou um movimento rápido e firme, chocando o joelho contra as pernas da mulher, provocando desequilíbrio. Rafaela sentiu o próprio corpo pender para o lado. O gatilho da arma foi pressionado. Some of them wanna get used by you.
           
(Continua)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Os livros no plástico



E haviam tantos livros teus que eu queria ter lido...

Não recordo mais com saudade, mas com nostalgia. O que vem a ser diferente em algumas ocasiões, como pensamentos interrompidos. Como aquela música que tantas vezes já tocou, mas que hoje, ao tocar novamente, me fez sentir como da primeira vez. Quando a conheci. Quando a aprendi. Aprendi a música, te aprendi.

Nós deveríamos ter arrumado mais o quarto. Quando eu tomava a garrafa inteira de café, reclamando da rinite e dos teus constantes pedidos de ajuda para fazer qualquer coisa que, no momento descansando do trabalho com um livro entre os dedos, não dei atenção. Não me apeteceu.
Não sinto vontade de voltar atrás, mas até bem pouco tempo, nem sentia vontade de lembrar. Já não sentia nada, como dizia a música, a tal música, que dizias ser tua, e eu dizia ser minha, e não mais dizíamos nada. Longas horas de silêncio anestésico, curandeiro, reconciliador.

E eu te dizia qualquer bobagem, que tomavas como lei sagrada de existência. Respondias-me com esforço e exagerada eloquência, o que sempre me parecia um pouco mais estúpido, vão, torpe do que gostarias de soar.
Divertia-me te vendo ler meus poemas, crônicas e resenhas, e espalhar tudo sobre a cama em desordem, tentando me aprender, admirando meu parco talento, me cobrando quase que diariamente um pouco mais de exposição, um pouco mais de intimidade, um pouco mais de mim. Dei-te muito, não tudo. Não teria dado o que nem eu sei se tenho. Fui egoísta, sou, segui sendo.

Te cobrei maturidade, enquanto choramingavas lamentando o passado, e esgotavas minha já tão rara paciência. Te exigi mais cultura, para sequer se permitir me questionar, quando me julgavas errando, sem saber muito bem o motivo, ou quando eu derramava o conteúdo do cinzeiro por acidente sobre o último lençol limpo de nosso armário.

E hoje, te dou razão, sobre uma das últimas coisas que me disseste. Eu não poderia viver assim. Não estava vivendo de fato. Não suportava que minha alma livre se comprimisse em tão poucos metros quadrados de intelecto; mental, gestual, habitual. Nunca pude caber em ti, porque meu espírito extravasava as paredes do quarto, da casa, o quarteirão...
Então sim, te dou razão, toda razão. Mas não, não me refiro ao material – que tanto te prende e apega. Não me refiro ao cortiço, nem às dificuldades de uma vida a dois. Me refiro ao mundo pequeno, limitado e trôpego que a tua sufocante persistência me acometia. Não saí de casa, saí de ti.

E tem tantos livros teus que eu gostaria de ter lido... Livros aos quais nem te davas ao trabalho de espanar esporadicamente. Livros que se empilhavam na prateleira metálica, e que só eram manipulados por mim. Alguns ainda no plástico de compra, envelhecendo junto conosco, fora de uso, mais meus do que teus.

Não sei qual caminho escolheste pra ti, e como já disse, não sinto saudade.

Aquela música hoje tocou, enquanto eu tomava meu café e fumava meu cigarro. Contemplei o céu fechado, chuvoso, lindo. O céu daqueles dias que vivemos no passado... 
E senti falta dos teus livros.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Escova de dentes



Na ocasião na qual nos conhecemos, ela estava escovando os dentes apressadamente no banheiro da faculdade. Foi impossível não notar as manobras que fazia com aquela escova apropriada para quem usa aparelho de correção dentária. Era seu primeiro ano morando sozinha, longe da mãe e de sua terra natal, ainda não havia se acostumado com a obrigação de fazer compras do mês, e naquela manhã fatídica havia descoberto o término do creme dental assim que saiu do banho, então precisou tomar cuidado de cumprimentar o porteiro do prédio e a moça da farmácia – onde entrou no caminho para comprar um novo creme dental – de longe, cobrir a boca com a mão e escovar os dentes na primeira pia que viu pela frente. No momento em que entrei no banheiro aos prantos, após desligar o celular do lado de fora do mesmo e dar de cara com ela – com aquela expressão interrogativa e constrangida que posteriormente conheci tão bem – eu não sabia de toda a desventura que havia passado, mas algo naquelas sobrancelhas arqueadas de modo inocente e surpreso me confortou de tal modo, que sem me importar com o fato de que nunca havíamos nos visto antes, a abracei involuntariamente e chorei copiosamente em seus braços. Ela ficou por alguns minutos estática, braços ensaiando devolver meu abraço e escova de dentes na boca cheia de espuma.

            Marina – como descobri se chamar algum tempo após o ocorrido - era a pessoa mais doce da qual já tive notícia. Apesar de toda a calma e gentileza que cada milímetro de seu corpo transpassava para quem quer que a conhecesse, havia algo de jocoso em seu sorriso, e ela apresentava aquele comportamento lépido, assaz apaixonante, quando sentia-se animada com algo novo que lhe chamava atenção. Nos pegamos de amizade após aquele episódio inusitado, e os dias ao lado dela pareciam maravilhosos, já nem lembrava mais da moça por quem eu chorava naquela manhã. Pouco falava, minha amiga. Era uma excelente ouvinte. Eram raras as vezes em que a ouvia comentar algum romance passado, e mais raras ainda as que se declarava interessada em alguém. Na verdade, recordando agora, acredito que nunca tenha recebido dela tais informações, apenas fantasiava que ela estaria observando algum rapaz pelo campus e a partir daí construía toda uma teoria em meu universo particular envolvendo o tipo de pessoa que chamaria sua atenção e se em algum momento de sua vida ela aceitaria ter um caso com alguém do mesmo sexo. Não me julguem por isso, pois se a tivessem conhecido como conheci, pensariam o mesmo.

            Na realidade, aos meus olhos Marina era irresistível para qualquer um que a conhecesse, por isso quase sempre que eu notava interesse de algum rapaz em sua pessoa me era amaríssima a ideia de que ela correspondesse. Não era a melhor das ideias sentir ciúmes de uma pessoa tão envolvente, pois precisaria dedicar grande parte de meu tempo ficando paranoica com qualquer nova chamada em seu telefone ou qualquer aproximação masculina, e no final acabava sendo apenas a mãe buscando notícias de sua filha ou algum colega de turma pedindo informações sobre as vagas para estágio no quadro de avisos. Era à toa, mas era inevitável. Eu sabia que se continuasse naquele caminho fatalmente acabaria apaixonada por ela e pondo tudo a perder, mas preferi deixar ao encargo da vida decidir por mim e por meus sentimentos. Não precisei de muito tempo para compreender como ela funcionava, pois tratava-se de uma pessoa livre e transparente em tempo integral. Ela me permitia conhece-la, me procurava constantemente, me convidava para fazer tudo em sua companhia. Sentia-me agraciada, como quem recebe das mãos do próprio Prometeu o fogo dos deuses. Aliás, quando Marina sorria eu acreditava que todos os deuses sorriam também, contemplando a beleza que não poderia caber em suas compreensões.

            Ela escrevia sonetos, mencionei isso? Além de ser excelente pianista, escrevia de forma tão bela, e ao mesmo tempo tão lacônica, tão precisa, que pouco do que estava presente naquelas linhas com as quais eu era presenteada constantemente me traziam à luz o que estava prestes a acontecer, mas que eu não compreendia. Alguns meses após nosso primeiro contato, nossa amizade era sólida e intensa, regada de carinho e zelo mútuo. Eu sabia, no entanto, que seria apenas aquilo. Jamais teria coragem de tentar dar um passo adiante com ela, mesmo sabendo que se tratava de uma pessoa compreensiva e gentil – e mesmo que ela soubesse de minha orientação sexual – até então só a havia ouvido falar sobre amantes do sexo masculino, e eu sabia que talvez se revelasse a ela como realmente me sentia em sua presença, poderia destruir tudo o que já havia cultivado até então. Preferi calar. Algum tempo se passou em que tudo permaneceu do mesmo modo, mas com a aproximação das férias Marina me disse que viajaria para o Sul para ver a família, e que se eu assim desejasse poderia acompanha-la. Fiquei surpresa com o convite, mas é evidente que aceitei para passar mais tempo em sua companhia e saber mais sobre sua vida.

            A viagem correu bem. Conheci sua mãe – que eu parecia já conhecer há tempos, e quem notei ter a mesma impressão sobre mim, tudo graças aos relatos da filha – e sua irmã caçula, que eram todas as pessoas que viviam na casa, levando em conta que Marina era órfã de pai. Melissa – a irmã de Marina - era um ano mais nova, e parecia me sorrir de modo estranho quando a irmã me apresentou à ela. Notei que houve uma troca de olhares ligeiramente tensa entre elas, mas permaneci em quietude e discrição afim de não interferir em assuntos de família. No terceiro dia de viagem, porém, Melissa invadiu o quarto de hóspedes onde eu dormia no meio da madrugada e antes que eu pudesse ter qualquer reação, arrancou o lençol de mim e danou-se a beijar e tatear meu corpo, como míope buscando a lente de contato perdida. Parecia ter destreza nula em quesitos sexuais, de modo que mais me machucava do que excitava. Notei que talvez nunca tivesse feito nada daquilo antes, e acreditasse que aquele seria o meio mais prático de chamar minha atenção. Após os segundos iniciais de choque ao ser acordada daquela maneira e ter a menina explorando meu colo, pescoço e busto com tanta sagacidade, consegui raciocinar melhor e segurei-a pelos pulsos de modo terno, apenas para que ela parasse. “Calma. Você não precisa fazer nada disso. Se queria sair comigo, por que não me disse?” Em outras circunstancias eu talvez tivesse apenas aproveitado o momento e me divertido, mas aquela era uma situação excepcional. Aquela era a irmã de minha querida amiga, e era também uma garota obviamente virgem e mais assustada do que eu ficara naquele momento, mas de modo ainda mais tímido e retraído. Ela recuou nervosamente diante de minha interrupção e começou a tremer. Tive medo que aquilo fosse algum tipo de convulsão, mas quando ela começou a falar compreendi ser apenas nervosismo.

            De modo bastante atrapalhado ela me explicou que havia notado o modo que eu olhava para a irmã dela, que desejava uma garota que lhe olhasse daquele modo, e que sentia muita raiva da mãe por aceitar tudo o que vinha da irmã mais velha enquanto ela era tratada como segundo plano. Lá estava eu diante de um pequeno drama familiar clichê. Senti-me tão constrangida com tudo aquilo que demorei para absorver as frases e coloca-las em ordem dentro do cérebro, mas apenas quando Melissa foi embora consegui resgatar alguns trechos de seu monólogo que me deixaram intrigada. “A mamãe aceita tudo o que a Marina faz, e se ela trouxer uma namorada em casa a mamãe trata bem e acha bonito. Se eu fizer o mesmo, sou deserdada”.  Certo... Qual o tempo verbal nisso? Isso é pretérito? É metáfora? É presente contínuo? Não conseguia pensar em nada a não ser Marina e sua reação quando escutasse o que aconteceu. Claro que eu contaria, afinal, era sua irmã caçula e ela deveria saber o que a menina sentia em relação a ela e à mãe. Temi, no entanto, contar o segredo de Melissa e ela novamente comentar sobre o modo que eu olhava para minha amiga. Aquilo não seria nada agradável... Eu precisava ser honesta com ela.

            Escolhi um local de profundo bom gosto, em um trecho da praia onde não passavam muitas pessoas. Sentamos na toalha estendida sobre a areia, e eu deitei a cabeça em suas coxas como costumávamos fazer na faculdade. Marina havia concordado em ouvir o que eu tinha pra dizer, e mesmo tendo ficado visivelmente curiosa, aguentou o caminho todo quietinha até ali, sem me metralhar de perguntas como seria típico dela fazer, portanto merecia ser recompensada, mesmo sabendo que aquilo poderia lhe parecer desagradável. Nos minutos seguintes narrei à minha amiga exatamente o que havia acontecido na véspera, e a observei estreitar aquele belo par de olhos verdes de um modo bem fofo e parar de dedilhar meus cabelos à medida que a história se tornava mais tensa. Temi que ela não acreditasse em mim, e pensasse que eu estava tentando envenena-la contra a irmã ou coisa assim, mas ao término de minha narrativa ela se limitou em ordenar de modo seco: “sente-se”. Obedeci sem questionar, apavorada com a ideia do que viria pela frente, mas tudo o que se passou pela minha cabeça naquela fração de segundos estava distante do que realmente ocorreu. Marina debruçou-se sobre minhas coxas, apoiou as duas mãos em torno das mesmas e uniu seus lábios aos meus de modo cálido e intenso. Parecia que toda a aura de delicadeza e doçura que pairava ao seu redor havia se desfeito, dando lugar a uma mulher madura e sagaz. Ela sabia o que estava fazendo. Correspondi o beijo que agora já envolvia nossas línguas em uma verdadeira guerra por espaço. Minha amiga aliviou o peso das mãos que sustentavam seu corpo, empurrando o meu com o próprio tórax para que eu deitasse na toalha. Novamente obedeci, desta vez realmente grata por estar sendo dominada. Ela encaixou a coxa entre as minhas e abandonou meus lábios. Por alguns segundos senti que me faltava o ar... Era vital manter aquele beijo, aquele toque, aquele contato. Sua boca ainda era latente na minha mesmo quando ela se afastou ligeiramente de meu rosto, mas logo compreendi a razão. Agora ela os utilizava para explorar meu pescoço, a região atrás de minha orelha e meu colo. Senti que precisava permitir que ela desse sequência ao seu próprio ritmo, para evitar que se sentisse intimidada e interrompesse tudo ali mesmo.

            Por outro lado uma parte minha estava tão excitada que desejava arrancar aquele vestido de seu corpo com os dentes e virar por cima dela com toda fúria que estava se acumulando dentro de mim. Não era uma fúria irada, e sim lasciva. Decidi retribuir as carícias, começando de modo sutil. Percorri as pontas dos dedos por suas costas e senti que os pelos do braço estavam arrepiados. Levei minha própria boca ao seu pescoço e o mordisquei. Senti o coração disparar quando ela emitiu um gemido breve e discreto próximo ao meu ouvido. Aquele era o sinal verde, então decidi partir para o ataque. Sem dar chances para que ela pensasse, envolvi sua cintura com um dos braços e inverti nossas posições, deixando-a agora com as costas na toalha. Arranquei minha própria camisa quando notei em seu rosto a expressão desejosa, mordendo com força metade do lábio inferior. Aquela cena luxuriosa e quente me fazia idealizar tudo o que eu gostaria de fazer com ela e agora podia. Finalmente a despi, lentamente, enquanto beijava cada parte de seu corpo e a ouvia emitir cada vez mais os sons que me incentivavam e indicavam estar no caminho certo. As pontas de meus dedos percorriam suas coxas externamente, e depois internamente, enquanto a boca auxiliava em movimentos circulares e lentos com a ponta da língua em seus seios alvos e confortáveis. Alcancei, após algum tempo de preparo, meu objetivo. A região mais tropical de seu corpo, de onde as cachoeiras transbordavam desejo e ansiedade. Percorri com meu pequeno veleiro aquele rio transbordante de prazer enquanto a ouvia entonar melodias sagradas em agradecimento á minha oferenda profana, quase pervertida. As costas de Marina arqueavam e se desprendiam do chão à medida que meus dedos cumpriam seu papel, mas antes que ela atingisse o ápice de nossa jornada, encaixei as orelhas entre suas coxas e concluí a navegação com o músculo mais forte de meu corpo. Ela se sentia tão livre que permitiu-se extravasar, tremer e gritar tudo o que precisava. Eu me sentia no topo do mundo.

            Ao término, retornei para o seu lado e deitei lentamente no espaço que ela já havia reservado para mim. Minha amiga inesperadamente segurou minha mandíbula com força e disse entre dentes “você é minha, e a próxima vadia que tentar lhe passar a mão vai se ver comigo”. E me beijou novamente. Eu quis argumentar que 'a vadia' em questão era a irmã dela, mas preferi novamente calar e permitir que tudo seguisse o fluxo da correnteza.
            Desde então, sempre que entramos de férias, viajamos para a casa de sua família e damos um jeito de repetir aquela tarde, em nosso canto na praia. Marina hoje em dia não se esquece mais de comprar creme dental, porque sempre deixo um aviso na porta de nossa geladeira.