segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Escova de dentes



Na ocasião na qual nos conhecemos, ela estava escovando os dentes apressadamente no banheiro da faculdade. Foi impossível não notar as manobras que fazia com aquela escova apropriada para quem usa aparelho de correção dentária. Era seu primeiro ano morando sozinha, longe da mãe e de sua terra natal, ainda não havia se acostumado com a obrigação de fazer compras do mês, e naquela manhã fatídica havia descoberto o término do creme dental assim que saiu do banho, então precisou tomar cuidado de cumprimentar o porteiro do prédio e a moça da farmácia – onde entrou no caminho para comprar um novo creme dental – de longe, cobrir a boca com a mão e escovar os dentes na primeira pia que viu pela frente. No momento em que entrei no banheiro aos prantos, após desligar o celular do lado de fora do mesmo e dar de cara com ela – com aquela expressão interrogativa e constrangida que posteriormente conheci tão bem – eu não sabia de toda a desventura que havia passado, mas algo naquelas sobrancelhas arqueadas de modo inocente e surpreso me confortou de tal modo, que sem me importar com o fato de que nunca havíamos nos visto antes, a abracei involuntariamente e chorei copiosamente em seus braços. Ela ficou por alguns minutos estática, braços ensaiando devolver meu abraço e escova de dentes na boca cheia de espuma.

            Marina – como descobri se chamar algum tempo após o ocorrido - era a pessoa mais doce da qual já tive notícia. Apesar de toda a calma e gentileza que cada milímetro de seu corpo transpassava para quem quer que a conhecesse, havia algo de jocoso em seu sorriso, e ela apresentava aquele comportamento lépido, assaz apaixonante, quando sentia-se animada com algo novo que lhe chamava atenção. Nos pegamos de amizade após aquele episódio inusitado, e os dias ao lado dela pareciam maravilhosos, já nem lembrava mais da moça por quem eu chorava naquela manhã. Pouco falava, minha amiga. Era uma excelente ouvinte. Eram raras as vezes em que a ouvia comentar algum romance passado, e mais raras ainda as que se declarava interessada em alguém. Na verdade, recordando agora, acredito que nunca tenha recebido dela tais informações, apenas fantasiava que ela estaria observando algum rapaz pelo campus e a partir daí construía toda uma teoria em meu universo particular envolvendo o tipo de pessoa que chamaria sua atenção e se em algum momento de sua vida ela aceitaria ter um caso com alguém do mesmo sexo. Não me julguem por isso, pois se a tivessem conhecido como conheci, pensariam o mesmo.

            Na realidade, aos meus olhos Marina era irresistível para qualquer um que a conhecesse, por isso quase sempre que eu notava interesse de algum rapaz em sua pessoa me era amaríssima a ideia de que ela correspondesse. Não era a melhor das ideias sentir ciúmes de uma pessoa tão envolvente, pois precisaria dedicar grande parte de meu tempo ficando paranoica com qualquer nova chamada em seu telefone ou qualquer aproximação masculina, e no final acabava sendo apenas a mãe buscando notícias de sua filha ou algum colega de turma pedindo informações sobre as vagas para estágio no quadro de avisos. Era à toa, mas era inevitável. Eu sabia que se continuasse naquele caminho fatalmente acabaria apaixonada por ela e pondo tudo a perder, mas preferi deixar ao encargo da vida decidir por mim e por meus sentimentos. Não precisei de muito tempo para compreender como ela funcionava, pois tratava-se de uma pessoa livre e transparente em tempo integral. Ela me permitia conhece-la, me procurava constantemente, me convidava para fazer tudo em sua companhia. Sentia-me agraciada, como quem recebe das mãos do próprio Prometeu o fogo dos deuses. Aliás, quando Marina sorria eu acreditava que todos os deuses sorriam também, contemplando a beleza que não poderia caber em suas compreensões.

            Ela escrevia sonetos, mencionei isso? Além de ser excelente pianista, escrevia de forma tão bela, e ao mesmo tempo tão lacônica, tão precisa, que pouco do que estava presente naquelas linhas com as quais eu era presenteada constantemente me traziam à luz o que estava prestes a acontecer, mas que eu não compreendia. Alguns meses após nosso primeiro contato, nossa amizade era sólida e intensa, regada de carinho e zelo mútuo. Eu sabia, no entanto, que seria apenas aquilo. Jamais teria coragem de tentar dar um passo adiante com ela, mesmo sabendo que se tratava de uma pessoa compreensiva e gentil – e mesmo que ela soubesse de minha orientação sexual – até então só a havia ouvido falar sobre amantes do sexo masculino, e eu sabia que talvez se revelasse a ela como realmente me sentia em sua presença, poderia destruir tudo o que já havia cultivado até então. Preferi calar. Algum tempo se passou em que tudo permaneceu do mesmo modo, mas com a aproximação das férias Marina me disse que viajaria para o Sul para ver a família, e que se eu assim desejasse poderia acompanha-la. Fiquei surpresa com o convite, mas é evidente que aceitei para passar mais tempo em sua companhia e saber mais sobre sua vida.

            A viagem correu bem. Conheci sua mãe – que eu parecia já conhecer há tempos, e quem notei ter a mesma impressão sobre mim, tudo graças aos relatos da filha – e sua irmã caçula, que eram todas as pessoas que viviam na casa, levando em conta que Marina era órfã de pai. Melissa – a irmã de Marina - era um ano mais nova, e parecia me sorrir de modo estranho quando a irmã me apresentou à ela. Notei que houve uma troca de olhares ligeiramente tensa entre elas, mas permaneci em quietude e discrição afim de não interferir em assuntos de família. No terceiro dia de viagem, porém, Melissa invadiu o quarto de hóspedes onde eu dormia no meio da madrugada e antes que eu pudesse ter qualquer reação, arrancou o lençol de mim e danou-se a beijar e tatear meu corpo, como míope buscando a lente de contato perdida. Parecia ter destreza nula em quesitos sexuais, de modo que mais me machucava do que excitava. Notei que talvez nunca tivesse feito nada daquilo antes, e acreditasse que aquele seria o meio mais prático de chamar minha atenção. Após os segundos iniciais de choque ao ser acordada daquela maneira e ter a menina explorando meu colo, pescoço e busto com tanta sagacidade, consegui raciocinar melhor e segurei-a pelos pulsos de modo terno, apenas para que ela parasse. “Calma. Você não precisa fazer nada disso. Se queria sair comigo, por que não me disse?” Em outras circunstancias eu talvez tivesse apenas aproveitado o momento e me divertido, mas aquela era uma situação excepcional. Aquela era a irmã de minha querida amiga, e era também uma garota obviamente virgem e mais assustada do que eu ficara naquele momento, mas de modo ainda mais tímido e retraído. Ela recuou nervosamente diante de minha interrupção e começou a tremer. Tive medo que aquilo fosse algum tipo de convulsão, mas quando ela começou a falar compreendi ser apenas nervosismo.

            De modo bastante atrapalhado ela me explicou que havia notado o modo que eu olhava para a irmã dela, que desejava uma garota que lhe olhasse daquele modo, e que sentia muita raiva da mãe por aceitar tudo o que vinha da irmã mais velha enquanto ela era tratada como segundo plano. Lá estava eu diante de um pequeno drama familiar clichê. Senti-me tão constrangida com tudo aquilo que demorei para absorver as frases e coloca-las em ordem dentro do cérebro, mas apenas quando Melissa foi embora consegui resgatar alguns trechos de seu monólogo que me deixaram intrigada. “A mamãe aceita tudo o que a Marina faz, e se ela trouxer uma namorada em casa a mamãe trata bem e acha bonito. Se eu fizer o mesmo, sou deserdada”.  Certo... Qual o tempo verbal nisso? Isso é pretérito? É metáfora? É presente contínuo? Não conseguia pensar em nada a não ser Marina e sua reação quando escutasse o que aconteceu. Claro que eu contaria, afinal, era sua irmã caçula e ela deveria saber o que a menina sentia em relação a ela e à mãe. Temi, no entanto, contar o segredo de Melissa e ela novamente comentar sobre o modo que eu olhava para minha amiga. Aquilo não seria nada agradável... Eu precisava ser honesta com ela.

            Escolhi um local de profundo bom gosto, em um trecho da praia onde não passavam muitas pessoas. Sentamos na toalha estendida sobre a areia, e eu deitei a cabeça em suas coxas como costumávamos fazer na faculdade. Marina havia concordado em ouvir o que eu tinha pra dizer, e mesmo tendo ficado visivelmente curiosa, aguentou o caminho todo quietinha até ali, sem me metralhar de perguntas como seria típico dela fazer, portanto merecia ser recompensada, mesmo sabendo que aquilo poderia lhe parecer desagradável. Nos minutos seguintes narrei à minha amiga exatamente o que havia acontecido na véspera, e a observei estreitar aquele belo par de olhos verdes de um modo bem fofo e parar de dedilhar meus cabelos à medida que a história se tornava mais tensa. Temi que ela não acreditasse em mim, e pensasse que eu estava tentando envenena-la contra a irmã ou coisa assim, mas ao término de minha narrativa ela se limitou em ordenar de modo seco: “sente-se”. Obedeci sem questionar, apavorada com a ideia do que viria pela frente, mas tudo o que se passou pela minha cabeça naquela fração de segundos estava distante do que realmente ocorreu. Marina debruçou-se sobre minhas coxas, apoiou as duas mãos em torno das mesmas e uniu seus lábios aos meus de modo cálido e intenso. Parecia que toda a aura de delicadeza e doçura que pairava ao seu redor havia se desfeito, dando lugar a uma mulher madura e sagaz. Ela sabia o que estava fazendo. Correspondi o beijo que agora já envolvia nossas línguas em uma verdadeira guerra por espaço. Minha amiga aliviou o peso das mãos que sustentavam seu corpo, empurrando o meu com o próprio tórax para que eu deitasse na toalha. Novamente obedeci, desta vez realmente grata por estar sendo dominada. Ela encaixou a coxa entre as minhas e abandonou meus lábios. Por alguns segundos senti que me faltava o ar... Era vital manter aquele beijo, aquele toque, aquele contato. Sua boca ainda era latente na minha mesmo quando ela se afastou ligeiramente de meu rosto, mas logo compreendi a razão. Agora ela os utilizava para explorar meu pescoço, a região atrás de minha orelha e meu colo. Senti que precisava permitir que ela desse sequência ao seu próprio ritmo, para evitar que se sentisse intimidada e interrompesse tudo ali mesmo.

            Por outro lado uma parte minha estava tão excitada que desejava arrancar aquele vestido de seu corpo com os dentes e virar por cima dela com toda fúria que estava se acumulando dentro de mim. Não era uma fúria irada, e sim lasciva. Decidi retribuir as carícias, começando de modo sutil. Percorri as pontas dos dedos por suas costas e senti que os pelos do braço estavam arrepiados. Levei minha própria boca ao seu pescoço e o mordisquei. Senti o coração disparar quando ela emitiu um gemido breve e discreto próximo ao meu ouvido. Aquele era o sinal verde, então decidi partir para o ataque. Sem dar chances para que ela pensasse, envolvi sua cintura com um dos braços e inverti nossas posições, deixando-a agora com as costas na toalha. Arranquei minha própria camisa quando notei em seu rosto a expressão desejosa, mordendo com força metade do lábio inferior. Aquela cena luxuriosa e quente me fazia idealizar tudo o que eu gostaria de fazer com ela e agora podia. Finalmente a despi, lentamente, enquanto beijava cada parte de seu corpo e a ouvia emitir cada vez mais os sons que me incentivavam e indicavam estar no caminho certo. As pontas de meus dedos percorriam suas coxas externamente, e depois internamente, enquanto a boca auxiliava em movimentos circulares e lentos com a ponta da língua em seus seios alvos e confortáveis. Alcancei, após algum tempo de preparo, meu objetivo. A região mais tropical de seu corpo, de onde as cachoeiras transbordavam desejo e ansiedade. Percorri com meu pequeno veleiro aquele rio transbordante de prazer enquanto a ouvia entonar melodias sagradas em agradecimento á minha oferenda profana, quase pervertida. As costas de Marina arqueavam e se desprendiam do chão à medida que meus dedos cumpriam seu papel, mas antes que ela atingisse o ápice de nossa jornada, encaixei as orelhas entre suas coxas e concluí a navegação com o músculo mais forte de meu corpo. Ela se sentia tão livre que permitiu-se extravasar, tremer e gritar tudo o que precisava. Eu me sentia no topo do mundo.

            Ao término, retornei para o seu lado e deitei lentamente no espaço que ela já havia reservado para mim. Minha amiga inesperadamente segurou minha mandíbula com força e disse entre dentes “você é minha, e a próxima vadia que tentar lhe passar a mão vai se ver comigo”. E me beijou novamente. Eu quis argumentar que 'a vadia' em questão era a irmã dela, mas preferi novamente calar e permitir que tudo seguisse o fluxo da correnteza.
            Desde então, sempre que entramos de férias, viajamos para a casa de sua família e damos um jeito de repetir aquela tarde, em nosso canto na praia. Marina hoje em dia não se esquece mais de comprar creme dental, porque sempre deixo um aviso na porta de nossa geladeira.

5 comentários:

  1. Ai perfeito '-'

    Estou esperando o proximo =)

    Adorei!!!!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. adorei o novo formato do blog
    e enquanto ao post...
    gostei do que li, queria te conhecer para trocarmos umas idéias -q

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  4. Lindoooooo. Me emocionei, qro +++++++

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